Assunção de Nossa Senhora - 18 de Agosto de 2002
"Olhou para a humilhação da sua Serva" -
Lucas 1,39-56
Evangelho
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se,
apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias
e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação
de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia
do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe
do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação
chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
Bem- aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o
que o Senhor lhe prometeu".
Então Maria disse: "A minha alma engrandece o Senhor, e
o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, porque olhou
para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações
me chamarão bem-aventurada, porque o Todo-Poderoso fez grandes
coisas em meu favor. O seu nome é santo, e sua misericórdia
se estende, de geração em geração, a todos
os que o respeitam.
Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos
de coração. Derrubou do trono os poderosos e elevou os
humildes. Encheu de bens os famintos e despediu os ricos de mãos
vazias. Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia,
conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua
descendência, para sempre".
Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.- Palavra
da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje pode-se dividir em duas partes - a história da
visitação da Maria à Isabel, e o "Canto de
Maria"- ou "Magnificat". Reduzir o sentido da Visitação
a um simples gesto serviçal da parte da Maria para com a sua
parenta idosa, seria empobrecer muito o pensamento de Lucas. Esta cena
é altamente simbólica - Lucas quer mostrar o acolhimento
do "Novo" (representado por Maria e Jesus) por parte do "Antigo",
(representado por Isabel e João). Isabel, símbolo de todos
os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo,
proclama Maria "bendita entre as mulheres", usando uma frase
usada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram
na libertação do seu povo, Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt
13,18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa, que, animada pela
fé em Javé libertador, colabora na luta pelo mundo que
Deus quer. Esse mundo, a chegada do Reino de Deus, já é
inaugurado com a chegada do seu Filho: "Bendito o fruto do seu
ventre". Neste trecho é importante destacar o motivo pelo
qual Maria é bem-aventurada:"Feliz aquela que acreditou".
Para Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade,
mas porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa
do Senhor - não somente a promessa da gravidez, mas no projeto
de Deus, desde Abraão, de dar ao seu povo a terra, a descendência
e a benção. Enfim, a promessa da realização
do projeto do Reino.
O
Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição
literária magistral, baseada no Canto da Ana (1 Sam 2,1-10) e
outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos
"Pobres de Javé", os deserdados dessa terra, que apesar
de tudo, acreditavam no projeto libertador do Deus da vida, e na chegada
duma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus olhou
para a sua pequenez e humilhação (não "humildade").
Ela canta a mudança radical que o Reino traz - os poderosos,
soberbos e ricaços serão derrubados e os pobres, humilhados
e famintos erguidos.
Esse
retrato da Maria contrasta muito com a personagem passiva e pálida
que muitas vezes inventamos para ela. A Maria de Lucas é uma
figura pobre e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres
das nossas comunidades hoje. Diante das forças opressoras do
seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo,
o racismo) ela canta a experiência do Deus libertador, do Deus
da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos. Essa Maria nos
desafia para que nos unamos na luta pela construção do
Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados
e dominadores. No nosso mundo, pelo menos tão opressor como o
daquela época, esse texto questiona as nossas opções
reais da vida. Seremos bem-aventurados na medida que nós acreditamos
e nos empenhamos na construção dum mundo mais fraterno,
justo e igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus.