QUARTO
DOMINGO DO ADVENTO - 24 de Dezembro de 2006
"Bendito o fruto do seu ventre!" - Lucas 1,39-45
Evangelho
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se,
apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias
e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação
de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia
do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe
do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação
chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
Bem- aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o
que o Senhor lhe prometeu". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados
à concepção e nascimento de Jesus, é essencial
conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante
é acentuar o grande contraste entre a Antiga e a Nova Aliança.
A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento
de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias
e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento
de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas,
a Antiga Aliança está esgotada - os seus símbolos
são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não
acredita no anúncio do anjo, e o nené que será
um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste,
a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré
que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus.
Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão,
no Templo, (Lc 2, 25-38), quando Simeão reza: “Agora, Senhor,
conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque
meus olhos viram a tua salvação”(2, 29).
Assim, não devemos reduzir a história de hoje a um relato
que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa
e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse mostrar Maria como
modelo de caridade, não teria colocado versículo 56, que
mostra ela deixando Isabel na hora de maior necessidade: “Maria
ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”.
Também não é verossímil que uma moça
judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão
perigosa como a de Galiléia à Judéia! A intenção
de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas
as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação
nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é
o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes
do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as
suas personagens principais: dum lado, Isabel, Zacarias e João;
doutro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel
faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú
e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução
da Septuaginta de Gn 25,22. O contexto, especialmente versículo
43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor.
Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode
interpretar a “agitação” de João no
seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor.
As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre
as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre”(v. 42)
fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação
do seu povo, no Antigo Testamento: Jael (Jz 5,24) e Judite (Jd 13,18).
Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo
do seu povo.
Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada”
( v. 45) : “Bem-aventurada aquela que acreditou.” Maria
é bendita em primeira lugar, não pela sua maternidade
somente, mas pela fé - em contraste com Zacarias, que não
acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de
fé.
Notemos que neste capítulo primeiro, nós encontramos -
na Bíblia - frases que podem fundamentar uma compreensão
certa da visão bíblica da pessoa e função
de Maria, que pode unir em lugar de dividir cristãos das diversas
confissões: “Ave Maria” (1,28);“Cheia de graça”
(1,28)“O Senhor é convosco”(1,28)“Bendita sois
vós entre as mulheres”(1, 42);“Bendito o fruto do
vosso ventre”(1,42). Lucas nos apresenta a mãe do Senhor
como modelo de fé para todos nós!