Assunção de Nossa Senhora - 20 de Agosto de 2006
"Você é bendita as mulheres" -
Lucas 1,39-45
Evangelho
Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se,
apressadamente, a uma cidade da Judéia. Entrou na casa de Zacarias
e cumprimentou Isabel. Quando Isabel ouviu a saudação
de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia
do Espírito Santo.
Com um grande grito, exclamou: "Bendita és tu entre as mulheres
e bendito é o fruto do teu ventre! Como posso merecer que a mãe
do meu Senhor me venha visitar? Logo que a tua saudação
chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre.
Bem- aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o
que o Senhor lhe prometeu". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados
à concepção e nascimento de Jesus, é essencial
conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante
é acentuar o grande contraste, mesmo que haja ainda continuidade,
entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada
nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista,
e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda
está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras
de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está
esgotada - os seus símbolos são Isabel, estéril
e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio
do anjo, e o nené que será um profeta, figura típica
do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos
a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será
o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste
nas figuras de Ana e Simeão, no Templo, (Lc 2, 25-38), especialmente
quando Simeão reza: “Agora , Senhor, conforme a tua promessa,
podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua
salvação”( 2, 29)”. Por isso, não devemos
reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a
caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida. Se
a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado versículo
56, que mostra ela deixando Isabel na hora de maior necessidade: “Maria
ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”.
Também não é verossímil que uma moça
judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão
perigosa como a de Galiléia à Judéia! A intenção
de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas
as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação
nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é
o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes
do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as
suas personagens principais: dum lado, Isabel, Zacarias e João;
doutro lado, Maria, José e Jesus.
O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel
faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú
e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução
da Septuaginta de Gn 25,22. O contexto, especialmente versículo
43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor.
Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode
interpretar a “agitação” de João -
é porque Maria está carregando o Senhor.
As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre
as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre”(v. 42)
fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação
do seu povo: Jael (Jz 5,24) e Judite (Jd 13,18). Aqui Isabel louva a
Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.
Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada”(v.
45):“Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é
bendita em primeira lugar, não pela sua maternidade, mas pela
fé - em contraste com Zacarias, que não acreditou. Aqui
Maria é principalmente modelo de fé.
Podemos também acrescentar que neste primeiro capítulo
nós encontramos as frases da primeira parte da oração
da “Ave Maria”: “Ave Maria”(1,28);“Cheia
de graça”(1,28);“O Senhor é convosco”(1,28);“Bendita
sois vós entre as mulheres”(1, 42);“Bendito o fruto
do vosso ventre”(1,42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria,
mãe do Senhor, modelo de fé para todos nós! Mas
a fé de Maria – como aliás sempre é na Biblia
- não foi uma adesão somente intelectual a Deus. Era o
assumir do projeto de Deus – justiça, libertação,
solidariedade e salvação integral. Por isso, Lucas põe
na boca de Maria o grande Cântico do Magnificat, atualizando o
Canto de Ana,(1 Sam 2, 1-10), cantando a grandeza do nosso Deus, que
põe-se ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba os poderosos
e prepotentes! O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora,
totalmente comprometida com o projeto de Deus para um mundo fraterno.
Se ela estivesse entre nós hoje, sem dúvida ela –
como também Jesus – estaria nas lutas populares para uma
vida mais digna, clamando pela Reforma Agrária e celebrando com
os irmãos e irmãs a fé no Deus de Justiça
e Libertação!