Festa do Batismo do Senhor - 11 de janeiro de 2004
"Este é o meu Filho amado, que muito me agrada"
- Lucas 3, 15-16. 21-22
Evangelho
Naquele tempo, o povo estava na expectativa e todos se perguntavam no
seu íntimo se João não seria o Messias. Por isso,
João declarou a todos:
"Eu vos batizo com água, mas virá aquele que é
mais forte do que eu. Eu não sou digno de desamarrar a correia
da suas sandálias. Ele vos batizará no Espírito
Santo e no fogo.
Quando todo o povo estava sendo batizado, Jesus também recebeu
o batismo. E, enquanto rezava, o céu se abriu e o Espírito
Santo desceu sobre Jesus em forma visível, como pomba. E do céu
veio uma voz:
"Tu és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer".
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Hoje, o Domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa
do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no
Rio Jordão, é tão importante teologicamente, que
é tratado por cada um dos quatro evangelistas, cada qual da sua
maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos
seus interesses teológicos. A história logo se tornou
um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão
de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação
dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1,4
ao perdão dos pecados, a adiciona vv. 14 e 15. Para João,
o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua
cristologia, que omite qualquer referência ao atual evento, e
no seu lugar, faz com que João Batista indica Jesus como o "Cordeiro
de Deus" (cf Jo 1, 29-34).
O
texto já nos apresenta o programa da vida e missão de
Jesus. Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como
membro do seu povo – identificando-se com aquela camada do povo
marginalizada e menosprezada como "impuro" pela teologia oficial,
atrelada ao poder político das elites. Como disse o saudoso Pe.
Alfredinho, fundador da Fraternidade do Servo Sofredor, "No dia
do seu batismo Jesus entrou na fileira dos pobres para nunca mais sair
dela!" Com o seu batismo, Jesus assume a fidelidade radical à
vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do
Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está,
desde o começo, rejeitando a visão dum Messianismo triunfalista.
Os
sínóticos ressaltam o fato que "o céu se abriu".
Marcos é o mais contundente quando enfatiza que "os céus
se rasgaram". É uma maneira simbólica de expressar
que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e
a terra (cf. At 7,56; 10, 11-16; Jo 1,51) e uma revelação
celeste (Is 63,19; Ez 1,1; Ap 4,1; 19,11). A revelação
maior é a confirmação da identidade de Jesus como
o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica
contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século,
muda a tradição original (Mc 1, 9-11), mantida por Lucas,
onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes
"Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher"
(v.17). Em ambos as tradições estas palavras associam
a terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2
Sm 7,14 (tu és meu filho...) a Is 42,1 (meu bem amado que me
aprouve escolher). A passagem de Isaías apresenta o Servo que
não levanta a voz (42,2), nem vacila, nem é quebrantado
(42,4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra
que podia expressar tanto o termo hebraico para "filho" como
para "servo"). Fazendo fusão desses textos do Antigo
Testamento, o texto une em Jesus duas figuras proféticas –
a do Filho da descendência real davídica e do Servo de
Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a
vocação do Servo Sofredor, e rejeita pretensões
messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é
para Jesus o assumir publicamente sua missão como Servo de Javé.
E a voz do céu confirme a sua opção de vida. O
Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério
público, como seu Filho (cf. Sl 2,7), seu bem-amado, objeto da
sua predileção.
Um
dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é
o nosso compromisso público com a vontade do Pai. E todos nós
podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de
Jesus – cada um de nós também é verdadeiramente
filho(a) do Pai celeste (cf. I Jo 3,1), a quem aprouve escolher-nos.
Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito
– nem a nossa fraqueza, nem o pecado (cf. Rm 8,39). Importante
é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente,
e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna
de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (cf. I Jo
4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado
do Pai, mas assumiu as conseqüências – uma vida de
fidelidade, que o levava até a Cruz – e a Ressurreição!
(cf. Fl. 2,6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos
o compromisso do nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do
Mestre, no esforço de contribuir na criação do
mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e
a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus
no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino
dele, que "já está no meio de nós" (cf.
Mc 1,14).