Evangelho
Naquele tempo, grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se,
ele lhes disse: “Se alguém vem a mim, mas não se
desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus
irmãos e suas irmãs e até da sua própria
vida, não pode ser meu discípulo. Quem não carrega
sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser
meu discípulo.
Com efeito, qual de vós, querendo construir uma torre, não
se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente
para terminar? Caso contrário, ele vai lançar o alicerce
e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso
começarão a caçoar, dizendo: ‘Este homem
começou a construir e não foi capaz de acabar!’
Ou ainda: Qual o rei que, ao sair para guerrear com outro, não
se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá
enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? Se ele vê
que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia
mensageiros para negociar a paz.
Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar
a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!” -
Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Aprofundando o seu ensinamento sobre o discipulato, Jesus aqui expõe
as condições para um verdadeiro seguimento. À primeira
vista, a leitura pode nos chocar! Pode até parecer que Jesus
esteja ensinando algo que não condiz muito com os ensinamentos
cristãos. Isso especialmente se a tradução da nossa
bíblia fala que nós devemos “odiar” os nossos
pais e família! (uma tradução literalmente correta).
Mas aqui - de novo - estamos diante do problema das culturas e das línguas.
Pois este texto nos traz um “semitismo”, ou seja, uma expressão
duma língua semita (no case de Jesus, o aramaico) que tem que
ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua expressa.
O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que não
tinham a mesma força que têm em português. Realmente
o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”.
Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses:
“Se alguém vem a mim, e não dá preferência
mais a mim do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher,
aos filhos, aos irmãos, às irmãs, a até
mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu
discípulo”. ( V. 26)
Jesus quer deixar bem claro - como ele faz muitas vezes “na caminhada”
- que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias.
Não só renuncia do mal e do pecado, mas renúncia
de coisas altamente positivas em si; não renúncia por
renunciar, mas em vista dum bem maior - o Reino de Deus, o único
bem que pode satisfazer plenamente os anseios mais profundos do coração
humano. Por isso, a vinda de Jesus pode ser visto como a crise escatalógica
última - pois põe todos nós diante das opções
mais fundamentais da nossa vida - quais são os valores reais
da nossa vida?
No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes,
onde tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados,
e a subjetividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa
como contra-cultural. Pois Jesus nos convida a definir os valores mais
profundas na nossa vida - e insiste que nada, por tão valioso
que seja, pode ser mais importante do que a dedicação
total ao Reino. Claro, ele não obriga - estamos livres para recusar
esta exigência - mas então não seremos discípulos
dele! Aqui põe em cheque a vivência de muito cristão,
que “não é frio nem quente, mas morno”, e
por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca”(
Ap. 3 16).
O tema da cruz reaparece aqui - e de novo lembramos que “carregar
a cruz” não é de maneira alguma simplesmente “sofrer”.
É a conseqüência duma coerência com o projeto
e a proposta de vida de Jesus. É condição imprescindível
para quem quer ser discípulo dele: “Quem não carrega
sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser
meu discípulo”(v.27). Podemos dizer que, se o trecho que
precede este texto (vv 15-24, “Um Rei fez um grande banquete”)
enfatiza a gratuidade do chamamento da parte de Deus, estes versículos
salientam o outro lado da medalha - a resposta incondicional dos discípulos.
Todo o evangelho de Lucas - como também os outros - deixa bem
claro que esta resposta é a meta da nossa vida. Ninguém
começa a caminhada com total dedicação ao Reino
- mesmo que pense que faz! É na caminhada de anos, com as nossas
incoerências, tropeços, erros, e traições,
que a gente aprende a ser discípulo/a. A experiência de
Pedro e dos Doze que nos diga!
As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do Rei que
vai à guerra - nos ensina a necessidade de reflexão antes
da ação. Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem
refletir sobre o preço a pagar. A situação triste
do construtor falido e do rei derrotado são símbolos da
situação do discípulo que desistiu “pelo
caminho”.
A reflexão sobre as exigências do discipulado pode nos
desanimar diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser
que reflitamos também sobre a gratuidade de Deus que não
nos abandona, mas nos ama como somos, e nos dará forças
para a caminhada. Assim foi a experiência do grande discípulo
Paulo, que após longos anos de experiência, incluindo as
maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos,
pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo
entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo
que eu quero, mas aquilo que mais detesto....Não faço
o bem que quero, e sim o mal que não quero”(Rom 7,15s).
Mas mesmo assim, reconhecendo os fracassos e falhas na sua caminhada
de discípulo, exclama com alegria:“ Portanto com muito
gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força
de Cristo habite em mim. É por isso que eu me alegro nas fraquezas,
humilhações, necessidades perseguições e
angústias, por causa de Cristo. Pois quando sou fraco, então
é que sou forte ( 2 Cor 12,9s).
Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes
ao seguimento de Jesus ele também fez a experiência da
graça de Deus: “Para você, basta a minha graça,
pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder”
(2 Cor 12,9).
Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança,
pois ele nos dará a graça necessária para a caminhada.
Basta querer e pedir!