Evangelho
Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus: “Havia um homem rico,
que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas
todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava
no chão, à porta do rico. Ele queria matar a fome com
as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham
os cachorros lamber suas feridas.
Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão.
Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos,
no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão,
com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão,
tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para
me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’.
Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste
teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora,
porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado.
E, além disso, há um grande abismo entre nós; por
mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para
junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até
nós’.
O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à
casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los,
para que não venham também eles para este lugar de tormento’.
Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os
Profetas, que os escutem!’ O rico insistiu: ‘Não,
Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente
vão se converter’.
Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés,
nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém
ressuscite dos mortos’”. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Este último trecho do capítulo dezesseis continua os ensinamentos
de Jesus sobre as riquezas, ou melhor, sobre a questão fundamental
da partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos.
Aqui temos a famosa parábola do "Rico e Lázaro",
e também a reflexão sobre o destino dos irmãos
do rico. Levanta a questão: "irão seguir o exemplo
do irmão rico, ou atender o ensinamento tanto de Jesus como do
Antigo Testamento sobre o cuidado dos necessitados, como Lázaro,
e assim se tornarem "Filhos de Abraão"?
Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades urbanas
das cidades gregas do Império Romano. A imagem da parábola
é típica da sociedade urbana - tanto a de então
como a de hoje! Dum lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes
e futilidades, e doutro lado o pobre miserável, faminto e doente.
Ambos vivem lado ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência
e dos sofrimento do pobre! Quantos exemplos disso existem hoje - lado
ao lado com a maior opulência, a mais desumana miséria,
e entre as duas situações uma barreira de cegueira e indiferença?
É muito interessante - e importante para a nossa compreensão
da parábola - que os vv. 22-26 não dizem que o rico foi
para o inferno por que ele fazia algo moralmente repreensível;
e nem que Lázaro fosse para o céu porque ele era "santo".
Por isso, por tão inconveniente possa soar numa sociedade como
a nossa, dá para entender que este trecho condena o rico simplesmente
por ser insensível, numa sociedade de empobrecimento, e abençoa
o pobre pelo simples fato de estar sofrendo a miséria numa sociedade
que esbanja os bens necessários para a vida. A riqueza torna-se
pecado diante da situação desumana dos pobres, pois é
a negação da partilha e da solidariedade! O rico foi condenado
por que ele simplesmente se fechou diante do sofrimento alheio. E este
fechamento é a negação de todo o ensinamento do
Antigo e do Novo Testamentos. O simples fato de existir lado a lado
o rico opulento e o Lázaro sofrido, é a condenação
duma sociedade pecaminosa que permite esta situação anti-evangélica.
A segundo parte da história, versículos 27-31, continua
com o diálogo entre o rico e Abraão, e mostra claramente
que a sua indiferença diante do sofrimento de Lázaro não
estava de acordo com o Antigo Testamento (vv.29-31), e nem com Jesus
(cf.v9). Enfatiza que nem manifestações milagrosas vão
mudar o coração duro de quem não quer ouvir a Palavra
de Deus:
"E Abraão lhe disse: "Se eles não
escutam a Moisés e os profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite,
eles não ficarão convencidos". (v.31)
Palavra tão atual! Pois não é por falta de conhecimento
da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação
atual. Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus
sobre a fraternidade e a solidariedade, que temos uma sociedade excludente
hoje no Brasil!. Não é por falta de celebrações
litúrgicas e sacramentais que há tanto sofrimento nas
nossas ruas e bairros! É simplesmente porque a sociedade opta
por se organizar conforme critérios anti-evangélicos,
e porque tantos cristão reduzem o cristianismo à uma serie
de leis e doutrinas - muitas vezes não ultrapassando muito uma
simples lista de "boas maneiras". Optamos por diluir as exigências
do Evangelho para que possamos continuar com os "rico" e os
"Lázaros" de hoje, lado a lado, sem que estes incomodem
aqueles! Sabemos o que a Bíblia diz, conhecemos muito bem o ensinamento
de Jesus - e continuamos na construção duma sociedade
injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a conseqüência
automática do sofrimento e exclusão.
O rico e Lázaro continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus
hoje nos desafia para que optemos para uma outra fora de sociedade,
onde todos terão acesso aos bens necessários para uma
vida digna. Se não queremos ouvir o que nos diz a Palavra de
Deus, se nós queremos continuar surdos diante do grito dos excluídos,
então o nosso destino será também aquele do rico
da história.
"Tenho medo de não atender,
De fingir que não escutei;
Tenho medo de ouvir teu chamado,
Virar doutro lado e fingir que não sei! "
Lucas não deixa que o leitor evite as questões gritantes
da ligação entre fé e vida, entre religião
e economia!