Vigésimo Nono Domingo Comum - 17 de outubro de 2004
"Será que o Filho do Homem vai encontrar a fé sobre
a terra?" - Lucas 18,1-8
Evangelho
Naquele tempo,Jesus contou aos discípulos uma parábola,
para mostrar-lhes a necessidade de rezar sempre, e nunca desistir, dizendo:
"Numa cidade havia um juiz que não temia a Deus, e não
respeitava homem algum. Na mesma cidade havia uma viúva, que
vinha à procura do juiz, pedindo: ‘Faze-me justiça
contra o meu adversário!’
Durante
muito tempo, o juiz se recusou. Por fim, ele pensou: ‘Eu não
temo a Deus, e não respeito homem algum. Mas esta viúva
já me está aborrecendo. Vou fazer-lhe justiça,
para que ela não venha a agredir-me!’”
E o Senhor acrescentou: “Escutai o que diz este juiz injusto.
E Deus, não fará justiça aos seus escolhidos, que
dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar?
Eu vos digo que Deus lhes fará justiça bem depressa. Mas
o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé
sobre a terra?” - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Embora possa parecer que o tema deste trecho seja simplesmente a oração,
na realidade Lucas o liga ao trecho anterior (17,22-37), que versava
sobre a segunda vinda de Filho do Homem, através da referência
em v.8: "Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai
encontrar a fé sobre a terra"?" Então devemos
entender o sentido original do texto em referência à situação
das comunidades do fim do primeiro século - Jesus tardava a retornar,
as perseguições estava no horizonte, as comunidades estavam
sofrendo vários tipos de pressão, e a fé começava
a vacilar. Por isso Lucas quer dar-lhes um ensinamento claro - Deus
não vai abandoná-las, então devem ficar firmes,
constantes na oração até que ele venha.
O tema da oração cristã já foi tratado no
capítulo onze de Lucas. Aqui volta à tona. Versículo
8 mostra que não se refere à simples oração
permanente, mas à uma atitude de oração baseada
na fé, até que Jesus volte.
Jesus tira uma mensagem duma situação que devia ter sido
comum nos tempos idos - a impotência duma pobre mulher diante
da prepotência dum juiz corrupto. Por ser viúva numa sociedade
patriarcal e machista, ela encarna a impotência dos pobres e marginalizados
diante dos poderes do mundo.
Jesus dá uma lição clara - se até um juiz
injusto atende os pedidos insistentes da viúva, quanto mais Deus
vai atender os pedidos daqueles que ele ama? Se a persistência
da viúva alcança o seu objetivo, quanto mais a oração
persistente do discípulo, diante dum Deus gracioso?: "E
Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que
dia e noite gritam por ele? Será que vai fazê-los esperar?
Eu lhes digo que Deus fará justiça para eles, e bem depressa."(v.7).
Aqui o texto nos faz lembrar um dos temas centrais de toda a Bíblia
- o grito do oprimido e a resposta de Deus. É um tema constante,
passando pelas páginas bíblicas desde Êxodo 3! Assim,
a questão decisiva não é se Deus fará ou
não justiça às comunidades oprimidas - é
óbvio que vai! A pergunta a ser respondida se formula em versículo
8, que já foi citado: "O Filho do Homem, quando vier, será
que vai encontrar a fé sobre a terra?" O problema não
é Deus mas os discípulos - será que os discípulos
de Jesus ficarão fiéis a ele durante a longa espera até
a sua segunda vinda? Para que tenham forças para vencer, então
é necessário que eles rezem constantamente e com fé.
Essa mesma idéia se faz presente no fim da Oração
do Senhor: "Não nos deixes cair em Tentação"
(Lc 11,4) Aqui também, Jesus ensinou que a comunidade deve pedir
o dom da fé e da perseverança, para não desanimar
diante dos problemas da vida.
Está muito atual este ensinamento de Jesus. Numa época
de tanto desânimo, tanta falta de perspectivas, quando se chega
a falar no "fim das utopias", devemos sempre rezar para que
não sucumbamos à tentação do desânimo
e do desespero, de não acreditar na foça do "grão
da mostarda", de desacreditar na presença do Reino. O evangelho
de hoje, aplicado a nós, existe para mostrar-nos: "a necessidade
de rezar sempre, sem nunca desistir"(v.1). Cabe a nós praticá-lo!