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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor - 4 de abril de 2004
"Bendito aquele que vem em nome do Senhor!" - Lucas 19,28-40 e Lucas 23,1-49

1º Evangelho - Lucas 19, 28-40
Naquele tempo, Jesus caminhava à frente dos discípulos, subindo para Jerusalém. Quando se aproximou de Betfagé e Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo:
“Ide ao povoado ali na frente. Logo na entrada encontrareis um jumentinho amarrado, que nunca foi montado. Desamarrai-o e trazei-o aqui. Se alguém, por acaso, vos perguntar: ‘Por que desamarrais o jumentinho?’, respondereis assim: ‘O Senhor precisa dele’”.
Os enviados partiram e encontraram tudo exatamente como Jesus lhes havia dito. Quando desamarravam o jumentinho, os donos perguntaram: “Por que estais desamarrando o jumentinho?” Eles responderam: “O Senhor precisa dele”. E levaram o jumentinho a Jesus.
Então puseram seus mantos sobre o animal e ajudaram Jesus a montar. E enquanto Jesus passava, o povo ia estendendo suas roupas no caminho. Quando chegou perto da descida do monte das Oliveiras, a multidão dos discípulos, aos gritos e cheia de alegria, começou a louvar a Deus por todos os milagres que tinha visto. Todos gritavam: “Bendito o rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!”
Do meio da multidão, alguns dos fariseus disseram a Jesus: “Mestre, repreende teus discípulos!” Jesus, porém, respondeu: “Eu vos declaro: se eles se calarem, as pedras gritarão”. - Palavra da Salvação

2º Evangelho - Lucas 23,1-49
N: Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, segundo Lucas. Naquele tempo, toda a multidão se levantou e levou Jesus a Pilatos. Começaram então a acusá-lo, dizendo:
T: “Achamos este homem fazendo subversão entre o nosso povo, proibindo pagar impostos a César e afirmando ser ele mesmo Cristo, o Rei”.
N: Pilatos o interrogou:
L1: “Tu és o rei dos judeus?”
N: Jesus respondeu, declarando:
P : “Tu o dizes!”
N: Então Pilatos disse aos sumos sacerdotes e à multidão:
L1: “Não encontro neste homem nenhum crime”.
N: Eles, porém, insistiam:
T: “Ele agita o povo, ensinando por toda a Judéia, desde a Galiléia, onde começou, até aqui”.
N: Quando ouviu isto, Pilatos perguntou:
L1: “Este homem é galileu?”
N: Ao saber que Jesus estava sob a autoridade de Herodes, Pilatos enviou-o a este, pois também Herodes estava em Jerusalém naqueles dias. Herodes ficou muito contente ao ver Jesus, pois havia muito tempo desejava vê-lo. Já ouvira falar a seu respeito e esperava vê-lo fazer algum milagre. Ele interrogou-o com muitas perguntas. Jesus, porém, nada lhe respondeu. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei estavam presentes e o acusavam com insistência. Herodes, com seus soldados, tratou Jesus com desprezo, zombou dele, vestiu-o com uma roupa vistosa e mandou-o de volta a Pilatos. Naquele dia Herodes e Pilatos ficaram amigos um do outro, pois antes eram inimigos. Então Pilatos convocou os sumos sacerdotes, os chefes e o povo, e lhes disse:
L1: “Vós me trouxestes este homem como se fosse um agitador do povo. Pois bem! Já o interroguei diante de vós e não encontrei nele nenhum dos crimes de que o acusais; nem Herodes, pois o mandou de volta para nós. Como podeis ver, ele nada fez para merecer a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”.
N: Toda a multidão começou a gritar:
T: “Fora com ele! Solta-nos Barrabás!”
N: Barrabás tinha sido preso por causa de uma revolta na cidade e por homicídio. Pilatos falou outra vez à multidão, pois queria libertar Jesus. Mas eles gritaram:
T: “Crucifica-o! Crucifica-o!”
N: E Pilatos falou pela terceira vez:
L1: “Que mal fez este homem? Não encontrei nele nenhum crime que mereça a morte. Portanto, vou castigá-lo e o soltarei”.
N: Eles, porém, continuaram a gritar com toda a força, pedindo que fosse crucificado. E a gritaria deles aumentava sempre mais. Então Pilatos decidiu que fosse feito o que eles pediam. Soltou o homem que eles queriam — aquele que fora preso por revolta e homicídio — e entregou Jesus à vontade deles. Enquanto levavam Jesus, pegaram um certo Simão, de Cirene, que voltava do campo, e impuseram-lhe a cruz para carregá-la atrás de Jesus. Seguia-o uma grande multidão do povo e de mulheres que batiam no peito e choravam por ele. Jesus, porém, voltou-se e disse:
P: “Filhas de Jerusalém, não choreis por mim! Chorai por vós mesmas e por vossos filhos! Porque dias virão em que se dirá: ‘Felizes as mulheres que nunca tiveram filhos, os ventres que nunca deram à luz e os seios que nunca amamentaram’. Então começarão a pedir às montanhas: ‘Cai sobre nós! e às colinas: ‘Escondei-nos!’ Porque, se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca?”
N: Levavam também outros dois malfeitores para serem mortos junto com Jesus. Quando chegaram ao lugar chamado “Calvário”, ali crucificaram Jesus e os malfeitores: um à sua direita e outro à sua esquerda. Jesus dizia:
P: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!”
N: Depois fizeram um sorteio, repartindo entre si as roupas de Jesus. O povo permanecia lá, olhando. E até os chefes zombavam, dizendo:
T: “A outros ele salvou. Salve-se a si mesmo, se, de fato, é o Cristo de Deus, o Escolhido!”
N: Os soldados também caçoavam dele; aproximavam-se, ofereciam-lhe vinagre, e diziam:
T: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!”
N: Acima dele havia um letreiro: “Este é o Rei dos Judeus”. Um dos malfeitores crucificados o insultava, dizendo:
L2: “Tu não és o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós!”
N: Mas o outro o repreendeu, dizendo:
L3: “Nem sequer temes a Deus, tu que sofres a mesma condenação? Para nós, é justo, porque estamos recebendo o que merecemos; mas ele não fez nada de mal”.
N: E acrescentou:
L3: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu reinado”.
N: Jesus lhe respondeu:
P: “Em verdade eu te digo: ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.
N: Já era mais ou menos meio-dia e uma escuridão cobriu toda a terra até as três horas da tarde, pois o sol parou de brilhar. A cortina do santuário rasgou-se pelo meio, e Jesus deu um forte grito:
P: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”.
N: Dizendo isso, expirou. (Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.)
N: O oficial do exército romano viu o que acontecera e glorificou a Deus, dizendo:
L4: “De fato! Este homem era justo!”
N: E as multidões, que tinham acorrido para assistir, viram o que havia acontecido e voltaram para casa, batendo no peito. Todos os conhecidos de Jesus, bem como as mulheres que o acompanhavam desde a Galiléia, ficaram a distância, olhando essas coisas. -
Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
Quase não há comunidade católica no Brasil que não comemora hoje, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana ramos, até se celebram encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam numa igreja num domingo comum, hoje fazem questão de não perder a procissão. Porém acredito que, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, seja importante estudar mais de perto o que significava esta entrada em Jerusalém para Jesus, e para o evangelista.
Uma das coisas que dificultam o nosso entendimento da passagem - como de outros textos - é a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar hoje um trecho do profeta Zacarias: "Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra"(Zac 9,9-10). Este era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os "Anawim", ou "os pobres de Javé", que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Entre este grupo encontravam-se Maria e José, e os discípulos de Jesus. Foi com esta espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as características do messias - seria um rei, mas um rei "justo e pobre"; não um rei de guerra, mas de paz! Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde os poderosos e violento oprimiam os pobres e pacíficos! Um rei jamais entraria numa cidade montado num jumento - o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco de raça! Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias, e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!
Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada dum Presidente ou Governador dos nosso tempos - de pompa, imponência, e demonstração de poder e força. O contrário do que significou o que Jesus fez! Chamamos o evento da "entrada triunfal de Jesus em Jerusalém" - e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor! Nada mais longe do sentido original deste evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus! O texto de hoje convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus - mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus, - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende estes termos? Esta semana foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus - das suas opções concretas em favor dos oprimidos, do seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das conseqüências políticas e econômicas da sua proposta duma sociedade justa e igualitária. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramar a sua morte. Nestes dias em que se polemiza muito sobre o filme de Mel Gibson, é importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram conseqüências da sua vida - é absolutamente impossível entender o que significa a Semana Santa sem ligá-la com o resto da vida de Jesus e com a sua proposta para a sociedade e para a comunidade dos seus seguidores. Jesus não morreu - foi morto porque incomodava, como continua a incomodar ainda os que continuam com o sistema opressor que é a expressão do anti-Reino, mesmo quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo.
É valioso a advertência contida num canto muito usado nas celebrações de hoje: "Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o salvador!" Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, ou só fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do evangelho de hoje?

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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