Sexto Domingo Comum - 12 de fevereiro de 2006
"E de toda parte as pessoas iam procurá-lo"
- Marcos 1,40-45
Evangelho
Naquele tempo, um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu:
"Se queres, tens o poder de curar-me". Jesus, cheio de compaixão,
estendeu a mão, tocou nele e disse: "Eu quero: fica curado!"
No mesmo instante, a lepra desapareceu e ele ficou curado.
Então Jesus o mandou logo embora, falando com firmeza: "Não
contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece,
pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como
prova para eles!"
Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso
Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade: ficava
fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode
esclarecer o que significava para Jesus "ir adiante e pregar a
Boa-Nova" (cf. Mc 1,38s). Marcos, diferente de outros evangelistas,
raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus.
Mas ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus
que demonstravam o sentido da chegada do Reino e da sua Boa Notícia.
O
texto de hoje conta a cura dum leproso. Os leprosos eram entre os mais
marginalizados da época (mesmo que agora a medicina saiba que
a lepra como tal não existia na Palestina do tempo de Jesus,
e que essas pessoas sofreram de diversas doenças da pele e não
da hanseníase). Eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia,
longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos
(cf. Lv 13,45-46). A única esperança do leproso de ser
reintegrado na comunidade estava numa cura da parte de Jesus. Ele diz
algo significativo "se queres, tu tens o poder de me curar".
Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé
- pelo contrário só faz onde a fé já existe.
O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé
que causa o milagre. Isso se torna importante recordar no nosso mundo
tão afoito em correr atrás de supostos milagres e milagreiros,
e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento dele
até a cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião
de "ôba-ôba" tão em voga hoje nas diversas
Igrejas cristãs, incluindo a Católica.
A
reação de Jesus é interessante: "Jesus ficou
cheio de ira"- certamente não com o leproso, mas com o sistema
social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus.
As leis de pureza, inventado pelos homens e atribuídas a Deus
tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana
e religiosa. O evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de
examinar as nossas leis e práticas para verificar se nós
também não criamos classes de excluídos e cristãos
da segunda categoria, em nome de Deus!!
Depois
da cura do leproso, encontramos um elemento característico do
Evangelho de Marcos - o tal "segredo messiânico". Jesus
proíbe que ele conte para os outros a história da cura!
Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa-notícia
da sua cura - naturalmente. Essa proibição vai aparecer
muitas vezes em Marcos - e no relato da confissão de Pedro na
estrada de Cesaréia de Filipe vamos ver o porque. Pois Jesus
não quer que o povo siga-o buscando prodígios e milagres,
mas quer que todos se tornem os seus discípulos como o Servo
de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, a concretização
do Reino de Deus. Por isso é de desconfiar de pregações
e celebrações religiosas que se limitam à experiências
intimistas de Deus sem um engajamento na transformação
do mundo e das suas estruturas.
Finalmente,
o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que a sua cura seja autenticada,
segundo as leis levíticas. Pois para Jesus não basta a
cura individual - ele quer que todas as pessoas sejam integradas numa
vivência comunitária sem marginalização por
causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde!
A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de
exclusão que é a nossa atual sociedade neo-liberal e consumista!
E diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre
atrás de Jesus, pois ele manifesta a verdadeira face de Deus
a eles, o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido
pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema farisaica da época
- "e de toda parte as pessoas iam procurá-lo".