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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Primeiro Domingo da Quaresma - 9 de março de 2003
"Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por Satanás" - Marcos 1,12-15

Evangelho
Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.
Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia, pregando o evangelho de Deus e dizendo: "O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no evangelho!" - Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto - Marcos duma forma muita resumida, Mateus e Lucas mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que estes relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra, duma maneira fundamentalista!

Uma coisa já chama a atenção - as tentações nos três evangelhos vêm logo após o batismo de Jesus! O batismo significava o assumir público da sua missão, como o Servo de Javé. Logo após este compromisso, ele tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência de Jesus é como a nossa própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas entre o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações!!

Marcos sublinha que "o Espírito impeliu Jesus para o deserto". O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora dele, durante as suas tentações. E como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência da sua fé!

Seguindo Lucas podemos reconhecer nas tentações as mesmas que nós, individualmente e comunitariamente enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se tornasse pão.

Podemos ver aqui a tentação do "prazer"- logo que enfrenta um pouco de sofrimento por causa da sua ascese, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das maios comuns hoje, num mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos, criando necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é "se quer, faça!", onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores! E a resposta de Jesus é contundente: "Não só de pão vive o homem". O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é masoquista, contra o necessário para viver dignamente. Mas salienta muito bem que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundas, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisa de ambos para que se tenha a vida plena! Nesta frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos!

A segunda tentação pode ser visto como a de "ter". De novo algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do evangelho do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário "ter mais", e que não importa "ser mais"! E como sempre, a tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. E Jesus também teve que enfrentar esta tentação - ele que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos pobres, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: "Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá"(v.8).

A terceira tentação podemos entender como a do "poder". Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para "evangelizar". Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! E ainda hoje todos nós enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo Sofredor e não como dominador, teve que clarear a sua vocação e despachar o diabo com a frase: "Não tentarás o Senhor seu Deus"(v.12)

Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as tentações do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Todas coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas!. Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o "diabo" que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. E o relato nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá"(v.8)

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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