Evangelho
Naquele tempo, o Espírito levou Jesus para o deserto. E ele ficou
no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás.
Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam.
Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galiléia,
pregando o evangelho de Deus e dizendo: "O tempo já se completou
e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede
no evangelho!" - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Os três evangelhos sinóticos contam a história das
tentações de Jesus no deserto - Marcos duma forma muita
resumida, Mateus e Lucas mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que
estes relatos procuram expressar uma experiência mística
de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé
da letra, duma maneira fundamentalista!
Uma
coisa já chama a atenção - as tentações
nos três evangelhos vêm logo após o batismo de Jesus!
O batismo significava o assumir público da sua missão,
como o Servo de Javé. Logo após este compromisso, ele
tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência
de Jesus é como a nossa própria - nós temos compromisso
com o projeto de Deus, mas entre o nosso compromisso e a nossa prática
do seguimento de Jesus, existem muitas tentações!!
Marcos
sublinha que "o Espírito impeliu Jesus para o deserto".
O Espírito não conduz Jesus à tentação,
mas é a força sustentadora dele, durante as suas tentações.
E como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar
às suas comunidades que elas também poderão contar
com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis
da vivência da sua fé!
Seguindo
Lucas podemos reconhecer nas tentações as mesmas que nós,
individualmente e comunitariamente enfrentamos na nossa caminhada da
fé hoje! Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra
se tornasse pão.
Podemos
ver aqui a tentação do "prazer"- logo que enfrenta
um pouco de sofrimento por causa da sua ascese, Jesus é tentado
a escapar dele! Uma tentação das maios comuns hoje, num
mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos,
criando necessidades falsas através de sofisticadas campanhas
de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é
"se quer, faça!", onde sacrifício, doação
e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores!
E a resposta de Jesus é contundente: "Não só
de pão vive o homem". O homem vive de pão certamente,
mas não só! Jesus não é masoquista, contra
o necessário para viver dignamente. Mas salienta muito bem que
não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas
a busca de valores mais profundas, como a justiça, a partilha,
a doação, a solidariedade com os sofredores. Não
faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisa
de ambos para que se tenha a vida plena! Nesta frase, Jesus desautoriza
tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens como os
que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos!
A
segunda tentação pode ser visto como a de "ter".
De novo algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna
da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do evangelho
do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das
nossas casas a mensagem de que é necessário "ter
mais", e que não importa "ser mais"! E como sempre,
a tentação vem em forma atraente - até a Igreja
pode cair na tentação de achar que a simples posse de
bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá
uma pregação mais evangélica. Somos tentados a
não acreditar na força dos pobres, de não seguir
o caminho do carpinteiro de Nazaré. E Jesus também teve
que enfrentar esta tentação - ele que veio para ser pobre
com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos
pobres, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para
o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às
custas da justiça social - Jesus afirma: "Você adorará
o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá"(v.8).
A
terceira tentação podemos entender como a do "poder".
Uma tentação permanente na história da Igreja e
dos cristãos. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular
do que na fragilidade da cruz, para "evangelizar". Quanta
aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que
o diga! E ainda hoje todos nós enfrentamos esta tentação
- não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente
deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio
para servir e não para ser servido, que veio como o Servo Sofredor
e não como dominador, teve que clarear a sua vocação
e despachar o diabo com a frase: "Não tentarás o
Senhor seu Deus"(v.12)
Realmente,
podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São
as tentações do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer!
Todas coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de
Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas
vidas!. Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o "diabo"
que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar
da nossa vocação de discípulos. E o relato nos
coloca diante da orientação básica para quem quer
vencer: Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele
servirá"(v.8)