Décimo Quarto Domingo Comum - 06 de julho de 2003
"Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré"
- Marcos 6,1-6
Evangelho
Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos
o acompanharam. Quando chegou o sábado, começou a ensinar
na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:
"De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria?
E eses grandes milagres que são realizadas por suas mãos?
Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão
de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não
moram aqui conosco?" E ficaram escandalizados por causa dele.
Jesus lhes dizia: "Um profeta só não é estimado
em sua pátria, entre seus parentes e familiares".
E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns
doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé
deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando. - Palavra
da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho
de Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus. O primeiro
bloco mostrou a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará
a dos discípulos. Assim Marcos gradativamente aumenta a tensão
entre o que Jesus é, e a incompreensão dos que o conhecem:
autoridades, familiares e discípulos. Tudo para poder lançar
como questão fundamental do seu Evangelho a pergunta "E
vocês, quem dizem que eu sou?"(Mc 8,29).
Duma
maneira indireta, Marcos aqui toca num dos problemas fundamentais dos
cristãos - o escândalo da encarnação. Freqüentemente
não temos tanta dificuldade em assumir a realidade da divindade
de Jesus, mas sim a sua humanidade! Até hoje, quantas teorias
esdrúxulas sobre onde Jesus passou os primeiros trinta anos da
sua vida, quando a realidade é que ele os passou como qualquer
outro rapaz da sua geração – numa família
e comunidade do interior, trabalhando com as mãos e partilhando
a dura sorte do seu povo. Mas relutamos para não enxergar a opção
real de Deus pelos marginalizados através da realidade da encarnação!
Os
seus próprios parentes também relutaram para não
aceitar a pessoa e a missão de Jesus. Marcos não esconde
a dureza das críticas: "Esse homem não é o
carpinteiro, o filho de Maria?"(v.3). Se fosse um fariseu, ou um
"doutor" da classe opressora, ele teria sido aceito! Quanta
coisa igual hoje - quando preferimos acreditar nas palavras retóricas
dos "doutores" e desprezamos a sabedoria popular dos que lutam
no meio do povo para um mundo mais justo!
Marcos
aqui retoma o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho para
conhecer Jesus não é através duma correria atrás
de milagres. Pois os Nazarenos conhecem bem os milagres de Jesus: "E
esses milagres que são realizados pelas mãos dele?"
(v.2). Aqui tocamos no cerne da questão! Em Marcos, Jesus nunca
faz um milagre para despertar a fé em alguém. É
a fé das pessoas que causam os milagres da parte de Jesus. Por
isso, é importante notar o verbo que Marcos usa: "E Jesus
não pôde fazer milagres em Nazaré"! (v.5).
Não foi que não quisesse, nem que não fizesse milagres,
mas que ele não pôde fazer! Porque? Por causa da falta
da fé deles!
O
texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem acreditamos!
Conseguimos vê-lo nos pequenos e humildes e nas pequenas ações
em favor do Reino? Ou o buscamos nos milagres e coisas estrondosas,
que muitas vezes podem mascarar uma relutância em assumir o caminho
da Cruz? Marcos quer suscitar uma desconfiança na sua comunidade
- se nem as autoridades e nem os parentes de Jesus o compreenderam,
será que nós o compreendamos? Devagarinho chegaremos ao
Capítulo 8, o pivô de Marcos, onde seremos convidados a
responder a pergunta fundamental da nossa fé: quem é Jesus
para mim hoje?