Décimo Quarto Domingo Comum - 09 de julho de 2006
"Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré"
- Marcos 6,1-6
Evangelho
Naquele tempo, Jesus foi a Nazaré, sua terra, e seus discípulos
o acompanharam. Quando chegou o sábado, começou a ensinar
na sinagoga. Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:
"De onde recebeu ele tudo isto? Como conseguiu tanta sabedoria?
E eses grandes milagres que são realizadas por suas mãos?
Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria e irmão
de Tiago, de Joset, de Judas e de Simão? Suas irmãs não
moram aqui conosco?" E ficaram escandalizados por causa dele.
Jesus lhes dizia: "Um profeta só não é estimado
em sua pátria, entre seus parentes e familiares".
E ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns
doentes, impondo-lhes as mãos. E admirou-se com a falta de fé
deles. Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando. - Palavra
da Salvação
O
texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho
de Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus. O primeiro
bloco mostrou a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará
a dos discípulos. Assim Marcos gradativamente aumenta a tensão
entre o que Jesus é, e a incompreensão dos que o conhecem:
autoridades, familiares e discípulos. Tudo para poder lançar
como questão fundamental do seu Evangelho a pergunta “E
vocês, quem dizem que eu sou?”(Mc 8,29).
Duma maneira indireta, Marcos aqui toca num dos problemas fundamentais
dos cristãos - o escândalo da encarnação.
Freqüentemente não temos tanta dificuldade em assumir a
realidade da divindade de Jesus, mas sim a sua humanidade! Até
hoje, quantas teorias esdrúxulas sobre onde Jesus passou os primeiros
trinta anos da sua vida, quando a realidade é que ele os passou
como qualquer outro rapaz da sua geração – numa
família e comunidade do interior, trabalhando com as mãos
e partilhando a dura sorte do seu povo. Mas relutamos para não
enxergar a opção real de Deus pelos marginalizados através
da realidade da encarnação!
Os seus próprios parentes também relutaram para não
aceitar a pessoa e a missão de Jesus. Marcos não esconde
a dureza das críticas: “Esse homem não é
o carpinteiro, o filho de Maria?”(v.3). Se fosse um fariseu, ou
um “doutor” da classe opressora, ele teria sido aceito!
Quanta coisa igual hoje - quando preferimos acreditar nas palavras retóricas
dos “doutores” e desprezamos a sabedoria popular dos que
lutam no meio do povo para um mundo mais justo!
Marcos aqui retoma o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho
para conhecer Jesus não é através duma correria
atrás de milagres. Pois os Nazarenos conhecem bem os milagres
de Jesus: “E esses milagres que são realizados pelas mãos
dele?” (v.2). Aqui tocamos no cerne da questão! Em Marcos,
Jesus nunca faz um milagre para despertar a fé em alguém.
Pelo contrário, é a fé das pessoas que causa os
milagres da parte de Jesus. Por isso, é importante notar o verbo
que Marcos usa: “E Jesus não pôde fazer milagres
em Nazaré”! (v.5). Não foi que não quisesse,
nem que não fizesse milagres, mas que ele não pôde
fazer! Porque? Por causa da falta da fé deles!
O texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem
acreditamos! Conseguimos vê-lo nos pequenos e humildes e nas pequenas
ações em favor do Reino? Ou o buscamos nos milagres e
coisas estrondosas, que muitas vezes podem mascarar uma relutância
em assumir o caminho da Cruz? Marcos quer suscitar uma desconfiança
na sua comunidade - se nem as autoridades e nem os parentes de Jesus
o compreenderam, será que nós o compreendamos? Devagarinho
chegaremos ao Capítulo 8, o pivô de Marcos, onde seremos
convidados a responder a pergunta fundamental da nossa fé: quem
é Jesus para mim hoje?
Pe. Tomaz Hughes - SVD
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