Décimo Sexto Domingo Comum - 23 de julho de 2006
"Jesus teve compaixão" - Marcos 6,30-34
Evangelho
Naquele tempo, os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram
tudo o que haviam feito e ensinado. Ele lhes disse: "Vinde sozinhos
para um lugar deserto, e descansai um pouco".
Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo, que não tinham
tempo nem para comer. Então foram sozinhos, de barco, para um
lugar deserto e afastado.
Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas
as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles.
Ao desembarcar, Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão,
porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes
muitas coisas. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos
um tema muito central – o da “compaixão” de
Jesus. Aliás, os evangelhos todos – e especialmente Lucas
- enfatizam este aspecto da personalidade e da missão de Jesus.
Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus :
de ter compaixão para todos os que sofrem.
Os versículos de hoje demonstram este traço de Jesus no
seu relacionamento com os discípulos e com as multidões.
Com os apóstolos ele ressalta a sua necessidade de descanso,
depois as tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os
resultados da missão, a primeira reação do Mestre
é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer
as forças. Jesus tem critérios que não correspondem
com o grande critério da sociedade nossa – o da eficácia!
Para ele, os apóstolos não eram máquinas, mas em
primeiro lugar pessoas humanas, que necessitavam de ser tratados como
tais. O trabalho – mesmo o trabalho missionário –
não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade dum equilíbrio
entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma
lição para muitos cristãos engajados hoje - embora
devamos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos
descuidar das nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais,
da saúde e do relacionamento afetivo com os outros. Caso contrário,
estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários
do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai.
Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o
povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado
pelos chefes político-religiosos de então, que nem tinha
tempo para comer. E quando ele se retirava, o povo ia atrás dele.
O que atraía tanta gente? Com certeza não foi em primeiro
lugar a doutrina, nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão,
de demonstrar duma maneira concreta o amor compassivo de Deus. Jesus
não teve “pena” do povo, não teve “dó”
dos sofridos. Teve “compaixão”, literalmente, sofria
junto, e tinha uma empatia com os sofredores, que se transformava numa
solidariedade afetiva e efetiva. Este traço da personalidade
de Jesus desafia as Igrejas e os seus ministros hoje, para que não
sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do
Pai. Infelizmente, muitas vezes as nossas secretarias paroquias mais
parecem repartições públicas do que lugares do
encontro com a comunidade que acredita no Deus de Jesus! A frieza humana
freqüentemente marca as nossas atitudes, pregações
e cuidado pastoral. Num mundo que exclui, que marginaliza e que só
valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que
nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão
diante das multidões, hoje, como há dois mil anos atrás,
semelhantes a “ovelhas sem pastor”.