Vigésimo Terceiro Domingo Comum - 07 de setembro de 2003
"Jesus faz bem todas as coisas" - Marcos 7,31-37
Evangelho
Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por
Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando
a região da Decápole.
Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e
pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o
homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos
seus ouvidos, cuspiu e, com a saliva, tocou a língua dele. Olhando
para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que
quer dizer: "Abre-te!"
Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e
ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência
que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava,
mais eles divulgavam.
Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas:
aos surdos faz ouvir e aos mudos falar". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O relato do texto de hoje , como do anterior de 7,24-30, situa-se no
território pagão de Tiro e Sidônia. Marcos faz questão
de sublinhar o contexto geográfico – talvez uma referência
à missão aos gentios que marcava a Igreja da Marcos. Mais
uma vez, estamos diante dum milagre de Jesus, que manifesta o poder
de Deus que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas,
e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território.
Em
si, o relato segue o roteiro de tantos outros – uma pessoa sofrendo
(neste caso de surdez e incapacidade de falar corretamente), a compaixão
da parte de Jesus que o leva a atender o pedido duma cura, a cura em
si, a proibição de espalhar a notícia (o "Segredo
Messiânico), e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo.
A
violação da proibição por parte da multidão,
traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus,
dando a impressão de que ele é muito mais do que um simples
curador! As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante
dele (7,37) são tiradas duma seção apocalíptica
de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de
Deus se faz presente.
Mais
uma vez, o Segredo Messiânico em Marcos nos faz perguntar sobe
o seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos
de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que
a sua verdadeira identidade só se revelará na sua Cruz
e Ressurreição. Pois é somente lá, e não
diante dos milagres, que Jesus é proclamado "Filho de Deus"
por um homem – o oficial que exclamou a pé da Cruz, vendo
como Jesus havia expirado "De fato, esse homem era mesmo Filho
de Deus"(Mc 15,39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres
é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus
por motivos errôneos e duvidosos, e para corrigir essa tendência
na sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus
com o título messiânico "Filho de Deus" a pé
da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só
se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais
forte do que a força humana (cf I Cor 1,25).
A
proclamação das testemunhas que Jesus "fez os surdos
ouvir e os mudos falar" alude a Is 35, 5-6, que faz parte da visão
apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Is 34-35, relacionado
com Is 40-66). O uso aquideste texto vetero-testamentário indica
que o futuro glorioso do novo Israel já está presente
no ministério de Jesus.
Podemos
ver um sentido mais simbólico para os nossos dias na cura relatada
– o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois o sistema
hegemônico de hoje, e os Meios de Comunicação frequentemente
atrelados e coniventes, procuram tapar os ouvidos do povo diante dos
gritos dos sofridos. Pois fazem questão de camuflar a realidade
sofrida de milhões, ou escondendo a realidade ou banalizando-a,
como fica claro na maioria dos noticiários de televisão.
Também as forças dominantes cada vez mais deixam os excluídos
sem voz – só pode ter voz ativa quem produz e consome,
na nossa sociedade consumista. Diante da surdez e mudez físicas,
Jesus cura! O evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem
ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para
que ajudem a devolver a voz àqueles a quem foi tirada. Dia 7
de setembro era o dia do Grito dos Excluídos – uma maneira
das Igrejas e outros pessoas de boa vontade assinalar que a nossa luta
esta em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade
não se limita à passeata dum dia, mas que é a tônica
da nossa ação evangelizadora.
"Jesus
fez bem todas as coisas – fez o surdos ouvir e os mudos falar"!
Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais – que
ajudamos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores
a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante, e que ajudamos
os sem-voz a recuperar a voz ativa, nas decisões das igrejas
e da sociedade em geral.