Vigésimo Terceiro Domingo Comum - 10 de setembro de 2006
"Jesus faz bem todas as coisas" - Marcos 7,31-37
Evangelho
Naquele tempo, Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por
Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando
a região da Decápole.
Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e
pediram que Jesus lhe impusesse a mão. Jesus afastou-se com o
homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos
seus ouvidos, cuspiu e, com a saliva, tocou a língua dele. Olhando
para o céu, suspirou e disse: "Efatá!", que
quer dizer: "Abre-te!"
Imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e
ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência
que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava,
mais eles divulgavam.
Muito impressionados, diziam: "Ele tem feito bem todas as coisas:
aos surdos faz ouvir e aos mudos falar". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O relato do texto de hoje , como do anterior de 7, 24-30, situa-se no
território pagão de Tiro e Sidônia. Marcos faz questão
de sublinhar o contexto geográfico – talvez uma referência
à missão aos gentios que marcava a sua Igreja. Mais uma
vez, estamos diante dum milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus
que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que
leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território.
Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros – uma pessoa
sofrendo (neste caso de surdez e incapacidade de falar corretamente),
a compaixão da parte de Jesus que o leva a atender o pedido duma
cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia
(o “Segredo Messiânico), e a incapacidade das testemunhas
de guardar o segredo.
A violação da proibição por parte da multidão,
traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus,
dando a impressão de que ele é muito mais do que um simples
curador! As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante
dele (7,37) são tiradas duma seção apocalíptica
de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de
Deus se faz presente.
Mais uma vez, o Segredo Messiânico em Marcos nos faz perguntar
sobe o seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de
Marcos de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro,
e que a sua verdadeira identidade só se revelará na sua
Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá,
e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho
de Deus” por uma pessoa humana – o oficial que exclamou
a pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado “De fato,
se homem era mesmo Filho de Deus”( Mc 15, 39). Para Marcos, uma
fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois
pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos e duvidosos,
e para corrigir essa tendência na sua comunidade, ele insiste
que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico
“Filho de Deus” a pé da Cruz, onde não há
lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de
Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força
humana (cf I Cor 1,25).
A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os
surdos ouvir e os mudos falar” alude a Is 35, 5-6, que faz parte
da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Is
34-35, relacionado com Is 40-66). O uso aqui deste texto vetero-testamentário
indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente
no ministério de Jesus.
Podemos ver um sentido mais simbólico para os nossos dias na
cura relatada – o de abrir
os ouvidos e soltar as línguas. Pois o sistema hegemônico
de hoje, e os Meios de Comunicação frequentemente atrelados
e coniventes, procuram tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos
sofridos. Pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida
de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica
claro na maioria dos noticiários de televisão. Também
as forças dominantes cada vez mais deixam os excluídos
sem voz – só pode ter voz ativa quem produz e consome,
na nossa sociedade materialista e consumista. Diante da surdez e mudez
físicas, Jesus cura! O evangelho e a atividade evangelizadora
das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos
oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem foi
tirada. Dia 7 de setembro foi o dia do Grito dos Excluídos –
uma maneira das Igrejas e outros pessoas de boa vontade assinalarem
que a nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos,
e que essa atividade não se limita à passeata dum dia,
mas que é a tônica da nossa ação evangelizadora.
“Jesus fez bem todas as coisas – fez o surdos ouvir e os
mudos falar”! Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais
– que ajudamos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos
sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante, e
que ajudamos os sem-voz a recuperar a voz ativa, nas decisões
das igrejas e da sociedade em geral.