Vigésimo Quarto Domingo Comum - 17 de setembro de 2006
"Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si
mesmo e me siga"
- Marcos 8, 27-35
Evangelho
Naquele tempo, Jesus partiu com seus discípulos para os povoados
de Cesaréia de Filipe. No caminho perguntou aos discípulos:
“Quem dizem os homens que eu sou?”
Eles
responderam: “Alguns dizem que tu és João Batista;
outros que és Elias; outros, ainda, que és um dos profetas”.
Então ele perguntou: “E vós, quem dizeis que eu
sou?” Pedro respondeu: “Tu és o Messias”.
Jesus proibiu-lhes severamente de falar a alguém a respeito.
Em seguida, começou a ensiná-los, dizendo que o Filho
do Homem devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos
sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto, e ressuscitar depois
de três dias.
Ele dizia isso abertamente. Então Pedro tomou Jesus à
parte e começou a repreendê-lo. Jesus voltou-se, olhou
para os discípulos e repreendeu a Pedro, dizendo: “Vai
para longe de mim, Satanás! Tu não pensas como Deus, e
sim como os homens”.
Então chamou a multidão com seus discípulos e disse:
“Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a
sua cruz e me siga. Pois quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la;
mas, quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho, vai salvá-la”.
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Como evangelho de hoje temos a história do caminho de Cesaréia
de Felipe. Embora de grande importância também em Mateus
e Lucas, o relato mais original está no evangelho de Marcos,
Cap. 8, onde se torna o pivô de todo o Evangelho.
A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma
pergunta bastante inócua: "quem dizem os homens que eu sou?”
Assim, chove respostas, pois esta pergunta não compromete - é
o “diz que”. Mas a segunda pergunta traz a facada: “E
vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vem muita
resposta, pois quem responde em nome pessoal, e não o dos outros,
se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus:
“tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou,
e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que
proclamou! Afirmou que foi através duma revelação
do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para
que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura
pelo menos até v.35. Porque o assunto é mais complicado
do que possa parecer.
Pois Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era
ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste
mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação
como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era
dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico
“Filho de Deus”- que vem de Daniel 7, 13ss - Jesus confirmou
que era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme
as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador,
não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores, até
a Cruz! Por isso Pedro contesta Jesus, pedindo que nada disso acontecesse.
E como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia:
“Afasta-se de mim, satanás! Você não pensa
as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.” (v.33). Pedro, cuja
proclamação de fé parecia ser tão acertada,
é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência!
Pedro tinha os títulos certos, mas a prática errada! Usando
os nossos termos de hoje, duma forma um tanto anacrônica, podemos
dizer que ele tinha ortodoxia mas não ortopraxis!
E assim Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa
ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie
a se mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v.34). Ter fé
em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual
ou teológica, mas uma prática, o seguimento dele na construção
do seu projeto, até as últimas conseqüências.
Hoje, dois mil anos mais tarde, a pergunta de Jesus ressoa forte - a
segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para
o catecismo, não para o Papa ou o Bispo, mas para cada de nós
pessoalmente? No fundo a resposta se dá, não com palavras,
mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de
Jesus - ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente!(cf.
Jo 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação
do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina e a teoria certas,
mas a prática errada!