Vigésimo Quinto Domingo Comum - 21 de setembro de 2003
"Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último,
aquele que serve a todos" - Marcos 9,30-37
Evangelho
Naquele tempo, Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia.
Ele não queria que ninguém soubesse disso, pois estava
ensinando a seus discípulos.
E dizia-lhes: "O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos
dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após
sua morte, ele ressuscitará".
Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras
e tinham medo de perguntar. Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa,
Jesus perguntou-lhes: "O que discutíeis pelo caminho?"
Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido
quem era a maior.
Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: " Se alguém
quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que
serve a todos!"
Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a,
disse: "Quem acolher em meu nome uma destas crianças é
a mim que estará acolhendo. E quem me acolher está acolhendo
não a mim, mas àquele que me enviou". - Palavra da
Salvação
Reflexão do Evangelho
Na estrutura do Marcos, depois da chamada "Crise Galalaíca",
manifestada no episódio da Estada de Cesaréia de Felipe,
Jesus muda totalmente da tática e estratégia. Ele não
anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres
– dos 19 milagres em Marcos, somente dois acontecem depois do
acontecimento de Cesaréia. Em lugar disso, ele se dedica quase
totalmente à formação dos seus discípulos,
tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos,
ensinando-os que o Caminho dele e o da Cruz, da entrega, da doação,
e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos
faz isso duma maneira bem planejada. Em três ocasiões,
Jesus anuncia a sua futura paixão (8,81; 9,31; 10,33-34). Em
cada ocasião os discípulos não compreendem (8,32;
8,34; 10,35-37). E, a partir dessas incompreensões, Jesus torna
a dar um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro
seguimento dele (8,34-38; 9,35-37; 10,38-45).
O
trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A
causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora
Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento dele
é uma vida de entrega, até a morte, em favor dos outros,
os Doze discutem entre si qual deles era a maior! O poder – tentação
permanente em todas as comunidades, não exemptando as Igrejas!
Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais
tem corrompido nas Igrejas - mais do que a imoralidade ou a ganância
financeira. No século passado, o estadista inglês Lord
Acton falou que "todo poder tende a corromper, e o poder absoluto
corrompe absolutamente". E não há poder mais perigoso
do que o religioso, que fala em nome de Deus!
Quantos
sofrimentos e males causados por essa sede do poder, disfarçada
como mandato de Deus. Desde o fundamentalismo fanático da Talebã
em Afeganistão até a ufania de certos padres –mormente
recém ordenados- que se ostentam com roupas finas e carros do
ano, e dominam duma maneira opressora religiosas e leigos de muito mais
experiência e sabedoria do que eles, a sede do poder e da dominação
– em nome de Deus – continua a distorcer a vida de muitas
comunidades religiosas, dentro e fora do Cristianismo.
Diante
da recusa dos seus discípulos em entender o seu ensinamento,
Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo
de quem deve seguí-lo. Não porque criança é
sempre santa nem inocente! Mas porque é sem-poder, dependente
dos adultos de tudo. No tempo de Jesus, criança era sem direitos,
entre os últimos da sociedade. Os seus discípulos são
convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira
do que o Mestre, ele que "não se apegou à sua igualdade
com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a
condição de servo e tornando-se semelhante aos homens.
Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se
obediente até a morte, e morte da cruz"(Fil 2,6-8).
O
poder em si é um bem – para ser usado em serviço
dos outros! Todos nós – clero, religiosos, leigos –
somos vulneráveis diante da tentação do poder.
Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois só pode ser
discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos! Evitemos
títulos, privilégios, e comportamentos que tão
facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o
nosso modelo seja sempre ele – e não os critérios
da sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força
vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus "que escolheu o que o
mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa
que é importante"(I Cor 1,28).