Trigésimo Domingo Comum - 26 de outubro de 2003
"E seguia Jesus pelo caminho" - Marcos 10,46-52
Evangelho
Naquele tempo, Jesus saiu de Jericó, junto com seus discípulos
e uma grande multidão.
O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo, estava sentado à
beira do caminho. Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno, estava passando,
começou a gritar: "Jesus, filho de Davi, tem piedade de
mim!"
Muitos o repreendiam para que se calasse. Mas ele gritava mais ainda:
"Filho de Davi, tem piedade de mim!" Então Jesus parou
e disse: "Chamai-o". Eles o chamaram e disseram: "Coragem,
levanta-te, Jesus te chama!" O cego jogou o manto, deu um pulo
e foi até Jesus.
Então Jesus lhe perguntou: "O que queres que eu te faça?"
O cego respondeu: "Mestre, que eu veja!" Jesus disse: "vai,
a tua fé te curou".
No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho.-
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Estamos no fim da caminhada central de Jesus, desde Cesaréia
de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém.
No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último
milagre que ele relata de Jesus – a cura do cego Bartimeu.
O
texto começa com um senso de urgência – chegaram
a Jericó e logo saíram. Parece que têm pressa para
caminhar até Jerusalém. E lá está o cego
Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho!! Enquanto Jesus está
"a caminho" com o seus discípulos, o cego está
à beira do caminho!! Simboliza todos os que não conseguem
caminhar no discipulato, mas estão parados, à beira do
seguimento de Jesus.
Mas
este texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve
que é Jesus que passa, ele grita fortemente! "Filho de Davi,
tem piedade de mim!" É de novo um dos temas centrais da
Bíblia – o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue
de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres
nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse,
o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia
de que Deus ouve esse grito. Mas a reação dos transeuntes
é típica – mandam que Bartimeu se cale!! O poder
dominante sempre quer abafar o grito do excluído!! E isso não
mudou até o dia de hoje!! Até na igrejas existe quem não
quer ouvir o grito, e faz tudo para abafar qualquer iniciativa popular.
Mas Deus ouve!!
Com
um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de
Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm que convidá-lo
para falar com Jesus. Mas para isso, Bartimeu tem que lançar
fora o manto – a única coisa que ele possuía, a
sua única segurança. Como os primeiros discípulos
no Lago (Mc 1, 18.20), ele aprende que não é possível
seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana
para experimentar a mão de Deus.
Mas
Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele
respeita a liberdade do cego e pergunta "o que quer que faça
por você" (v.51). Pois Jesus não obriga ninguém
a se libertar – há quem prefira ficar sentado à
beira do caminho, na sua comodidade e não opte pela libertação.
Mas Bartimeu quer ver de novo – diferente do cego de Jo 9, ele
via uma vez e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade
marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé, e que
precisava o toque de Jesus para que voltassem a ver claramente.
Curado,
Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas
ele faz uma outra opção: "no mesmo instante o cego
começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho"(v.52).
Ele usava para Jesus um titulo não muito adequado "filho
de Davi", pois em Mc 12,35-37, Jesus fez muitas restrições
a este titulo messiânico, mas ele tem a prática certa –
segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de
Pedro, que tinha o titulo certo "Tu és o Messias "(Mc
8,29), mas a prática errada! Não quis que Jesus caminhasse
para a morte! Assim, em Marcos, o modelo de discípulo não
é Pedro, mas Bartimeu!! Pois mais importante do que os títulos
e expressões teológicas, sem negar a sua importância
relativa, é a prática dos seguimento de Jesus! Um alerta
para todos nós, para que a nossa prática seja coerente
com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de
Deus.