Domingo de Ramos - 13 de abril de 2003
"Bendito seja em nome do Senhor aquele que vem"
- Marcos 11,1-11
Evangelho
Explicação dos Sinais: N= Narrador; D= Cristo
;1L= Primeiro Leitor; Gr= Grupo de pessoas; 2L=
Segundo Leitor.
N.: Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo segundo Marcos.
- Logo pela manhã, os sumos Sacerdotes, com os anciãos,
os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram um
decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos. E Pilatos
o interrogou:
1L.: "Tu és o rei dos judeus?"
N.: Jesus respondeu:
D: "Tu o dizes".
N.: E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações
contra Jesus. Pilatos o interrogou novamente:
1L.: "Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te
acusam!"
N.: Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos
ficou admirado.
Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que
eles pedissem. Havia então um preso, chamado Barrabás,
entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato.
A multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse
como era o costume. Pilatos perguntou:
1L.: "Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?"
N.: Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus
por inveja. Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão
para que Pilatos lhes soltasse Barrabás. Pilatos perguntou de
novo:
1L.: "Que quereis então que eu faça com o
rei dos judeus?"
N.: Mas eles tornaram a gritar:
Gr.: "Crucifica-o!"
N.: Pilatos perguntou:
1L.: "Mas que mal ele fez?"
N.: Eles, porém, gritaram com mais força:
Gr.: "Crucifica-o!"
N.: Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás,
mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. Então
os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é,
o pretório, e convocaram toda a tropa. Vestiram Jesus com um
manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.
E começaram a saudá-lo:
Gr.: "Salve, o rei dos judeus!"
N.: Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e,
dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele. Depois de zombarem de
Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias
roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. Os soldados
obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo,
que voltava do campo, a carregar a cruz. Levaram Jesus para o lugar
chamado Gólgota, que quer dizer "Calvário".
Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele não o tomou.
Então
o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver
que parte caberia a cada um. Eram nove horas da manhã quando
o crucificaram. E ali estava uma inscrição com o motivo
de sua condenação: "O Rei dos Judeus". Com Jesus
foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro
à esquerda. Os que por ali passavam o insultavam, balançando
a cabeça e dizendo:
Gr.: "Ah! Tu que destróis o Templo e o reconstróis
em três dias, salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!"
N.: Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei,
zombavam entre si, dizendo:
Gr.: "A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!
O Messias, o rei de Israel... que desça agora da cruz, para que
vejamos e acreditemos!"
N.: Os que foram crucificados com ele também o insultavam.
Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra,
até as três horas da tarde. Pelas três horas da tarde,
Jesus gritou com voz forte:
D: "Eloi, Eloi, lamá sabactâni?"
N.: Que quer dizer: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"
Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram:
Gr.: "Vejam, ele está chamando Elias!"
N.: Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a
na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo:
2L.: "Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz".
N.: Então Jesus deu um forte grito e expirou.
Um minuto de silêncio.
N.: Nesse momento a cortina do santuário rasgou-se de
alto a baixo, em duas partes. Quando o oficial do exército, que
estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse:
2L.: "Na verdade, este homem era Filho de Deus!" -
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Quase não há comunidade católica no Brasil que
não comemore hoje, com muita alegria e entusiasmo, a entrada
de Jesus em Jerusalém. Se faz procissões, o povo abana
ramos, até se organizam encenações do evento. Pessoas
que dificilmente pisam numa igreja num domingo comum, hoje fazem questão
de não perder a procissão. Mas acredito que, para reduzirmos
a comemoração a mero folclore, seja importante estudar
mais de perto o que significava esta entrada em Jerusalém para
Jesus, e para o evangelista.
Uma
das coisas que dificultam o nosso entendimento da passagem - como de
outros textos - é a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento.
Cumpre relembrar hoje um trecho do profeta Zacarias: "Dance de
alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém,
pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é
pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta...Anunciará
a paz a todas as nações, e o seu domínio irá
de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra"(Zac
9,9-10). Este era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo
conhecido como os "Anawim", ou "os pobres de Javé",
que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Entre este
grupo seguramente estavam Maria e José, e os discípulos
de Jesus. Nesta espiritualidade, Jesus foi criado. E Zacarias traçava
as características do messias - seria um rei, mas um rei "justo
e pobre"; não um rei de guerra, mas de paz! Viria estabelecer
uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias
(e de Jesus, e de nós) - onde os poderosos e ricos oprimiam os
pobres e pacíficos! Um rei jamais entraria numa cidade montado
num jumento - o animal do pobre camponês, mas num cavalo branca
de raça! Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz
uma releitura do profeta Zacarias, e se identifica com o rei pobre,
da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!
Por
isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus
em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada dum
Presidente ou Governador dos nosso tempos, - de pompa, imponência,
e demonstração de poder e força. Parece muito mais
ligado à prepotência de George Bush do que à figura
de Jesus! O contrário do que significava o que Jesus fez! Chamamos
o evento da "entrada triunfal de Jesus em Jerusalém"
- e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que
se encarnou entre nós como o Servo Sofredor! Nada mais longe
do sentido original deste evento do que manifestações
de poderio e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome
da Igreja e do Evangelho de Jesus! Que bom ouvir o Papa desautorizar
o terrorista George Bush de declarar uma guerra sangrenta em nome do
Deus dos cristãos! O mesmo se aplica também, obviamente
aos fundamentalistas de todas as religiões. O texto de hoje convida
a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus - mas
será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus
rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias?
Ou inventamos um outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade,
com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende
estes termos? É valiosa a advertência contida num canto
muito usado nas celebrações de hoje: "Eles queriam
um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram
nele e mataram o salvador! Realmente acreditamos no rei dos pobres e
oprimidos, ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos,
mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do
profeta Zacarias e do evangelho de hoje? Acreditamos na força
do direito (Jesus e o seu projeto de vida) ou no direito da força
(George Bush e o seu projeto de morte?)