Evangelho
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: "Naqueles
dias, depois da grande tribulação, o sol vai escurecer,
e a lua não brilhará mais, as estrelas começarão
a cair do céu e as forças do céu serão abaladas.
Então vereis o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder
de glória. Ele enviará os anjos aos quatro cantos da terra
e reunirá os eleitos de Deus, de uma extremidade à outra
da terra.
Aprendei, pois, da figueira esta parábola: quando seus ramos
ficam verdes e as folhas começam a brotar, sabeis que o verão
está perto. Assim também, quando virdes acontecer essas
coisas, ficai sabendo que o Filho do Homem está próximo,
às portas.
Em verdade vos digo, esta geração não passará
até que tudo isto aconteça. O céu e a terra passarão,
mas as minhas palavras não passarão. Quanto àquele
dia e hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho,
mas somente o Pai".-
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje nos apresenta diversas dificuldades de interpretação,
pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências
veladas à possíveis eventos históricos, e referências
tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais
desconhecidas para nós. Porém, a sua mensagem central
fica clara – o triunfo final do Filho do Homem, mandando por Deus
para estabelecer o seu Reino. A linguagem vetero-testamentário
de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião
dos eleitos de Deus são unidas num contexto novo, em que a vinda
escatalógica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central.
A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da
vitória de Deus – e a expectativa desta chegada serve como
base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos
ao longo de todo o Discurso Escatalógico de Marcos.
Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência
a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10, Ez 32,7; Am 8,9; Jl 2,10.31;
3,1`5; Is 34,4; Ag 2,6.21; Mas em nenhum lugar no Antigo Testamento
se referem à vinda do Filho do Homem – é uma novidade
do evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que
toda a citação assinalará a sua vinda final. A
descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens,
é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se refere claramente
a Jesus e não à figura angélica “em forma
humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação
de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2,10. Este reunir-se
dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30,4; Is
11,11.16; 27,12. Ez 39,7 etc. – mas nunca no Antigo Testamento
é o Filho do Homem que faz esse trabalho.
A segunda parte do texto consiste numa parábola (vv. 28-29),
um ditado sobre a hora do fim (v 30), sobre a autoridade de Jesus (
v. 31) e de novo sobre a hora (v 32). Nem sempre fica claro a que se
refere – o que se fala sobre essas coisas” acontecerem “nessa
geração” tem como contrabalanço o v. 32 que
diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais
claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição
a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas continua
clara a mensagem básica – a vitória final do projeto
de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas
a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância
constante por parte dos discípulos, para que não se desviem
do caminho.
Pode parecer confuso o nosso texto – e para nós hoje, duma
certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatalógico
(referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de
esperança e uma advertência. A esperança nasce do
fato de que a vitoria de Deus é garantida – um elemento
fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na
necessidade de vigilância constante, para que não percamos
a hora do Filho. Num mundo de desesperança e falta de ânimo
por parte de muitos, o texto convida nós, os discípulos,
à uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em
prol da construção do Reino entre nós. Mas também
nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos
cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas
vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino
de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que
possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta.
“O céu a terra passarão, mas as minhas palavras
não passarão”.
Pe.
Tomaz Hughes - SVD