Festa de Ascensão do Senhor - 01 de junho de 2003
"Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia
para toda a humanidade" - Marcos 16,15-20
Evangelho
Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, e disse-lhes:
"Ide pelo mundo inteiro e anunciai o evangelho a toda criatura!
Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será
condenado.
Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes:
expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas;
se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes
fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre os doentes,
eles ficarão curados".
Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado
ao céu e sentou-se à direita de Deus. Os discípulos
então saíram e pregaram por toda a parte. O Senhor os
ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.
-
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Este texto, desde v.9, que contém o fim de Marcos, interrompe
o fio da narração precedente, é muito diferente
em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente
dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está
designado nas nossas bíblias como "Apêndice"
provavelmente escrita na segundo século, e baseado basicamente
no Capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João
20 e com referências de fatos narrados em Atos. Embora não
acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus
e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes
para a vida da Igreja hoje.
Destaca-se
muito o mandamento missionário de Jesus – o de levar a
Boa-Nova para toda a humanidade (cf. Mt 28,18-20). A Igreja é
por sua natureza missionária, é uma igreja que descuida
desse mandato está traindo a sua identidade. Porém, faz-se
mister distinguir entre "missão" e "proselitismo".
Igrejas proselitistas tem como meta angariar fiéis de outras
Igrejas para a sua. Giram ao redor de si mesmas, identificando a sua
Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária
tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e
religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino
de Deus e ajudando pessoas de boa vontade a descobrirem a presença
do Reino - e do anti-Reino – nas suas próprias culturas
e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandato
nos fará lembrar que nós não somos donos da missão
– a missão é do próprio Deus, cujo Filho
Jesus foi o primeiro missionário da Trindade. Ele deixou a comunidade
de discípulos(as) para continuar a sua missão da implantação
do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão.
A serviço dela, existem diversos carismas, ou dons do Espírito
Santo, para o bem de todos. Mas ninguém está dispensado
dessa tarefa missionária, fechando-se na sua própria comunidade
ou Igreja - pelo contrário, devemos sentir-nos unidos aos irmãos
e irmãs do mundo todo e comprometidos com a construção
da sociedade justa e solidária que será uma concretização
da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão a longo prazo
é de reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa
as fronteiras da Igreja visível). Fazemo-lo através da
proclamação explícita da Boa Nova, do estabelecimento
dum diálogo respeitoso com membros de outras tradições
religiosas; convidando homens a mulheres a pertencer a uma comunidade
de testemunho e serviço e levando a cada ser humano a missão
divina duma salvação integral.
O
texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionaria:
"expulsão de demônios": expulsando da convivência
humana os sinais do mal, do anti-Reino, que escraviza e oprime milhões
de pessoas, através de estruturas econômicas, sociais e
até religiosas, de exclusão; "falando línguas":
como em Pentecostes, criando uma nova língua do diálogo
e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; "vencendo
veneno" - superando tanto veneno semeado durante milênios
na convivência humana, expressado através do racismo, machismo,
clericalismo, e todos os "ismos" que excluem e nos dividem;"curando
doentes": lutando na prática para que "todos tenham
a vida e a tenham plenamente"(cf. Jo 10,10) como fez Jesus, não
somente fazendo curas individuais, mas restaurando a saúde integral,
das pessoas e da criação, através da vivência
comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágica
se esses elementos ficassem reduzidos à busca de "milagres"
duvidosos, a falação de "supostas "línguas
dos anjos", e a satanização de tudo, confundindo
expressões de desequilíbrio emocional com a presença
diabólica.
Durante
séculos, muitas vezes os cristãos do Brasil – e
de muitas regiões – têm se acomodado com a vivência
duma religião individual, acomodada e freqüentemente alienada
dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação
artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa
e a transformação social. O mandato de semearmos a Boa
Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus –
não somente à sua pessoa, mas também à sua
prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino à
toda a humanidade.