4º Domingo do Advento - 19 de dezembro de 2004
"Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados"
- Mateus 1,18-24
Evangelho
A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida
em casamento a José, e, antes de viverem juntos, ela ficou grávida
pela ação do Espírito Santo. José, seu marido,
era justo e, não querendo denunciá-la, resolveu abandonar
Maria, em segredo.
Enquanto José pensava nisso, eis que o anjo do Senhor apareceu-lhe,
em sonho, e lhe disse: “José, Filho de Davi, não
tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela
ação do Espírito Santo. Ela dará à
luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar
o seu povo de seus pecados”.
Tudo isso aconteceu para se cumprir o que o Senhor havia dito pelo profeta:
“Eis que a virgem conceberá e dará à luz
um filho. Ele será chamado pelo nome de Emanuel, que significa:
Deus está conosco”.
Quando acordou, José fez como o anjo do Senhor havia mandado
e aceitou sua esposa. - Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Este texto nos relata a história da concepção virginal
de Jesus, na versão mateana. Tipico deste evangelho, escrito
para uma comunidade predominantemente judeu-cristã, em polêmica
com o judaísmo rabínico dos últimos anos do primeiro
século, o texto traz muitas releituras de trechos do Antigo Testamento.
Para entendê-lo bem, devemos examiná-lo passo por passo,
sempre lembrando do contexto em que foi escrito.
A primeira coisa a ser entendida é a situação “matrimonial”
de Maria e José. O casamento judaico da época se dava
em duas etapas – primeiro os noivos assumiram o compromisso publicamente,
diante de testemunhas, mesmo que não coabitassem durante mais
ou menos um ano. A situação era mais séria do que
o nosso noivado – na lei judaica, qualquer relação
sexual neste período seria considerada adultério. Num
segundo momento, a noiva era levada à casa do noivo, que assumia
a responsabilidade pelo bem-estar dela, e os dois começavam a
morar juntos. Foi no período entre as duas etapas que o texto
coloca a anunciação a José. No relato de Mateus,
diferente de Lucas, Maria não age diretamente – é
José que desempenha o papel principal.
A atitude de José, de repudiar Maria secretamente, sempre levantava
problemas. Pois para que um repúdio fosse legal, tinha que ser
feito publicamente com um certificado oficial (Dt 24,1). Vários
autores antigos debateram sobre a atitude de José. Como podia
ser chamado de “homem justo”, se ele esconde o crime da
sua desposada? (São Jerônimo). São Bernardo pensava
que José conhecia, ou por revelação de Deus, ou
por Maria, o fato da concepção virginal. Então,
diante da presença de Deus Infinito, por temor reverencial e
respeito ao mistério, queria se retirar em silêncio. Escrevendo
para uma comunidade de tradição judaica, Mateus quer mostrar
que Jesus, mesmo gerado pelo Espírito Santo, era realmente descendente
de Davi, e herdeiro das promessas messiânicas, pois José
o assumiu e deu-lhe o nome.
Para a Bíblia, o nome muitas vezes significa a missão,
ou a identidade, da pessoa. O nome de Jesus significa “Javé
salva”! O nome resume toda a missão e projeto de vida do
recém concebido!
Os vv.22-23 nos dão um belo exemplo de como os primeiros cristãos
faziam releitura do Antigo Testamento, à luz da vida de Jesus.
Infelizmente, muitas vezes este trecho é muito mal explicado,
como se o profeta Isaías tivesse uma visão dos acontecimentos
de Nazaré e Belém, assim reduzindo o profeta a mero vidente!
De novo cumpre lembrar que Mateus, na sua polêmica com o judaísmo
rabinico formativo, quer mostrar que Jesus realiza as promessas do Antigo
Testamento, e portanto que os seus seguidores são os verdadeiramente
fiéis à tradição judaica. Por isso, ele
usa a tática de “citações de cumprimento
das Escrituras” para interpretar os acontecimentos mais marcantes
da vida de Jesus (1,22; 2,15.23; 4,14; 8,17; 13,35; 21,4; 27,9). Assim,
o trecho de hoje usa um texto de Isaías, onde, diante da recusa
do Rei Acaz de pedir um sinal de Deus, o profeta aponta para a sua jovem
esposa, já grávida, e diz que antes do filho chegar à
idade de razão, os dois reis que o atacavam seriam derrotados
(cf. Is 7,1-15). O texto original hebraico não falava duma “virgem”
mas usava um termo hebraico “almah” que significava tanto
uma menina virgem, como uma jovem recém-casada. L. Stadelmann
mostrou que o termo também designava uma senhora nobre estrangeira,
no caso, a esposa estrangeira do Rei Acaz. Também, o texto hebraico
diz que ela “concebeu” e não que “conceberá”
(como foi traduzido pela versão dos Setenta, no grego). Portanto
a profecia de Is 7,14 originalmente não se referia à Maria.
A interpretação mariana vem de Mateus. Usando a tradução
grega da Septuaginta, ele fala que “a virgem conceberá"
e dará a luz o filho. A mudança do tempo do verbo, do
passado para o futuro, na tradução da LXX, testemunha
as expectativas messiânicas do tempo da tradução.
Usando o texto de Is 7,14, Mateus faz uma releitura do texto profético,
aplicando-o ao Messias e à sua mãe.
Este texto é muitas vezes explicado duma maneira fundamentalista,
sem levar em conta nem o contexto da profecia de Isaías, nem
do escrito de Mateus, como se a frase “conforme as escrituras”
significasse que Jesus só tinha que seguir tarefas predestinados
pelo Pai, duma forma mecânica. Como diz A. Murad “a frase
salienta que o grande sonho do povo, as suas aspirações,
os seus desejos mais íntimos e utopias, as suas expectativas
messiânicas, encontram realização na pessoa de Jesus...
a partir da sua Ressurreição, os cristãos olham
para o passado e se servem de imagens e trechos de profecias, para justificar
esta experiência indescritível. Algumas vezes, como faz
Mateus, chegam até a forçar e alterar parte do texto original.
Não se sentem presos à letra da escritura mas movidos
pelo Espírito, que os faz ver o sentido último dos acontecimentos....
Eles conferem sentido novo aos textos antigos, que muitas vezes extrapola
a intenção original do seu autor. Assim acontece com Is
7,14, reinterpretado por Mt 1,22s. O primeiro texto não diz respeito
a Maria e Jesus, o segundo sim.” (Quem É Esta Mulher? –
Paulinas p. 213).
O texto de hoje nos dá o verdadeiro motivo da alegria do Natal
– não porque é festa de presentes e festividades,
mas porque recordamos (fazemos passar de novo pelo coração!)
a verdadeira Boa-Nova: que Jesus era o "Emanuel”, o Deus-Conosco,
aquele que veio salvar-nos dos nosso pecados! Era a encarnação
da bondade e de amor gratuito de Deus!