Festa do Batismo do Senhor - 09 de janeiro de 2005
"Este é o meu Filho amado, que muito me agrada" -
Mateus 3,13-17
Evangelho
Naquele tempo, Jesus veio da Galiléia para o rio Jordão,
a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João
protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens
a mim?”
Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está,
porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João
concordou.
Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então,
o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus descendo
como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que
dizia: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.
- Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Hoje, o Domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa
do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no
Rio Jordão, é tão importante teologicamente que
é tratado por cada um dos quatro evangelistas, cada qual da sua
maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos
seus interesses teológicos. A história logo se tornou
um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão
de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação
dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1,4
ao perdão dos pecados, a adiciona vv.14 e 15. Para João,
o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua
cristologia, que omite qualquer referência ao atual evento, e
no seu lugar, faz com que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro
de Deus” (cf Jo 1,29-34).
O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de
Jesus – a justiça do Reino. Em Mateus, a palavra “justiça”
designa a fidelidade nova e radical à vontade de Deus. O significado
disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus,
unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo,
rejeitando a visão dum Messianismo triunfante.
Os sínóticos ressaltam o fato que “o céu
se abriu”. Marcos é mais contundente ainda quando enfatiza
que “os céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica
de expressar que em Jesus acontece a união definitivo entre o
céu e a terra (cf. At 7,56; 10,11-16; Jo 1,51) e uma revelação
celeste (Is 63,19; Ez 1,1; Ap 4,1; 19,11). A revelação
maior é a confirmação da identidade de Jesus como
o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica
contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século,
muda a tradição original (Mc 1,9-11; Lc 3,21-22 ), onde
as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes
“Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve
escolher” (v.17). Estas palavras associam a terminologia de Sl
2,7, que repete a profecia de Natã em 2 Sm 7,14 (tu és
meu filho...) a Is 42,1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A passagem
de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42,2),
nem vacila, nem é quebrantado (42,4). (A tradução
grega da Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto o termo
hebraico para “filho” como para “servo”). Fazendo
fusão desses textos do Antigo Testamento, Mateus une em Jesus
duas figuras proféticas – a do Filho da descendência
real davídica e do Servo de Javé. Assim, prevê que
o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor,
e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos
dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da
sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirme
a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece
Jesus, desde o início do seu ministério público,
como seu Filho (cf. Sl 2,7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é
o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós
podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de
Jesus – cada um de nós também é verdadeiramente
filho(a) do Pai celeste (cf. I Jo 3,1), a quem aprouve escolher-nos.
Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito
– nem a nossa fraqueza, nem o pecado (cf. Rm 8,39). Importante
é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente,
e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna
de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (cf. I Jo 4,10-11).
Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu
as conseqüências – uma vida de fidelidade, que o levava
até a Cruz – e a Ressurreição! (cf. Fl. 2,6-11)
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso
batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço
de criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam
o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma
que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação,
fazendo crescer o Reino dele, que “já está no meio
de nós” (cf. Mc 1,14).