Festa do Batismo do Senhor - 13 de janeiro de 2008
"Este é o meu Filho amado, que muito me agrada" -
Mateus 3,13-17
Evangelho
Naquele tempo, Jesus veio da Galiléia para o rio Jordão,
a fim de se encontrar com João e ser batizado por ele. Mas João
protestou, dizendo: “Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens
a mim?”
Jesus, porém, respondeu-lhe: “Por enquanto deixa como está,
porque nós devemos cumprir toda a justiça!” E João
concordou.
Depois de ser batizado, Jesus saiu logo da água. Então,
o céu se abriu e Jesus viu o Espírito de Deus descendo
como pomba e vindo pousar sobre ele. E do céu veio uma voz que
dizia: “Este é meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado”.
- Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Hoje, o Domingo depois da Epifania, celebra-se tradicionalmente a Festa
do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no
Rio Jordão é tão importante teologicamente que
é tratado por cada um dos quatro evangelistas, cada qual da sua
maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos
seus interesses teológicos. A história logo se tornou
um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão
de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação
dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1,
4 ao perdão dos pecados, a adiciona os versículos 14 e
15. Para o Quarto Evangelho, o batismo era tão difícil
de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite qualquer referência
ao atual evento, e no seu lugar faz com que João Batista indique
Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29-34).
O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de
Jesus - a justiça do Reino. Em Mateus, a palavra “justiça”
designa a fidelidade nova e radical à vontade de Deus. O significado
disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus,
unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo,
rejeitando a visão de um Messianismo triunfante.
Os sinóticos ressaltam o fato que “o céu se abriu”.
Marcos é mais contundente ainda quando enfatiza que “os
céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica
de expressar que em Jesus acontece a união definitiva entre o
céu e a terra (veja At 7,56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação
celeste (Is 63, 19; Ez 1, 1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação
maior é a confirmação da identidade de Jesus como
o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica
contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século,
muda a tradição original (Mc 1, 9-11; Lc 3, 21-22), onde
as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes:
“Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve
escolher” (v. 17). Estas palavras associam a terminologia de Sl
2, 7, que repete a profecia de Natã em 2 Sm 7, 14 (tu és
meu filho...) a Is 42, 1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A
passagem de Isaías apresenta o Servo que não levanta a
voz (42, 2), nem vacila, nem é quebrantado (42, 4). (A tradução
grega da Septuagenta usou uma palavra que podia expressar tanto o termo
hebraico para “filho” como para “servo”). Fazendo
fusão desses textos do Antigo Testamento, Mateus une em Jesus
duas figuras proféticas - a do Filho da descendência real
davídica e do Servo de Javé. Assim, prevê que o
messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor
e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos
dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da
sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirma
a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece
Jesus, desde o início do seu ministério público,
como seu Filho ( Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.
Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é
o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós
podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de
Jesus - cada um de nós também é verdadeiramente
filho(a) do Pai celeste (veja I Jo 3, 1), a quem aprouve escolher-nos.
Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito
- nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante é
reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a
nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos
e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (I Jo 4, 10-11). Jesus não
achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as conseqüências
- uma vida de fidelidade, que o levava até a Cruz - e a Ressurreição!
(Fl 2, 6-11).
Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso
batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço
de criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam
o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma
que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação,
fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já está
no meio de nós” (Mc 1,14).