Terceiro Domingo Comum - 23 de janeiro de 2008
"Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo"
- Mateus 4-12-23
Evangelho
Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galiléia.
Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens
do mar da Galiléia, no território de Zabulon e Neftali,
para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: “Terra
de Zabulon, terra de Nefatali, caminho do mar, região do outro
lado do rio Jordão, Galiléia dos pagãos! O povo
que vivia nas trevas viu uma grande luz, e para os que viviam na região
escura da morte brilhou uma luz”.
Daí em diante Jesus começou a pregar, dizendo: “Convertei-vos,
porque o Reino dos Céus está próximo”. Quando
Jesus andava à beira do mar da Galiléia, viu dois irmãos:
Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Estavam
lançando a rede ao mar, pois eram pescadores. Jesus disse a eles:
“Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”.
Eles imediatamente deixaram as redes e o seguiram.
Caminhando um pouco mais, Jesus viu outros dois irmãos: Tiago,
filho de Zebedeu, e seu irmão João. Estavam na barca com
o pai deles, Zebedeu consertando as redes. Jesus os chamou. Eles imediatamente
deixaram a barca e o pai e o seguiram.
Jesus andava por toda Galiléia, ensinado em suas sinagogas, pregando
o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade
do povo. - Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
O texto começa situando a pessoa e a missão de Jesus no
seu contexto concreto, histórica e geograficamente. A mudança
de Jesus para a Galiléia tem sido interpretada tanto como um
assumir corajoso da sua missão profética, diante da prisão
de João, como uma busca de maior segurança. O verbo usado
para “retirou-se” no versículo 12 costuma ser usado
por Mateus para indicar recuo diante dum perigo (veja 2, 12.13.14.22;
12, 15; 14, 13; 15, 21). Mas, o autor quer não somente apontar
o lugar geográfico da missão de Jesus, mas também
a sua natureza profética. Por isso, cita com grandes modificações,
o texto de Is 8, 23-9, 1. Mateus condensa o texto da forma que só
sobram as referências geográficas que apontam para o Norte
da Galiléa e Transjordânia, conquistadas pelos pagãos
assírios em 734 a.C. Ao passo que a maioria dos profetas e messias
do seu tempo se retirava para o deserto (p. ex., os Essênios de
Qumrã e João, o Batista), ou agiram na capital, Jerusalém,
Jesus se retira para a periferia, Galiléia, cercada pelos gentios.
A esperança da salvação inicia-se exatamente numa
região da qual nada se espera. No tempo de Mateus, uma grande
parte da população da Galiléia era gentia. Por
isso, escolhendo este lugar como palco da sua missão, o ministério
de Jesus vai entrar em contato com “todas as nações”
(28, 19).
O versículo 17 inaugura solenemente a missão de Jesus,
a de anunciar a presença do Reino de Deus entre nós. Essa
é a mensagem central de Jesus e, junto com a Ressurreição,
formava a base e o objetivo da esperança cristã. Tirado
da visão noturna de Daniel (Dn 7, 13-14), o Reino representa
a salvação futura e definitiva de toda a humanidade, social,
política e espiritualmente, através do exercício
da soberania de Deus, estabelecendo o "Shalom”, a paz que
vem pela justiça, na terra como no céu. Como Mateus escreve
para uma comunidade basicamente de judeu-cristãos; ele segue
o costume de não pronunciar o nome de Deus, e por isso, usa a
frase “Reino dos Céus” no sentido de “Reino
de Deus”. Infelizmente, esta convenção nascida do
respeito pela transcendência de Deus levou muitas pessoas a identificar,
erroneamente, o Reino como algo pertencente somente ao céu, diluindo
a sua força transformadora.
O primeiro passo de Jesus é chamar um grupo de discípulos,
começando com os pescadores do Lago de Genesaré. Jesus
rompe com o costume rabínico, pois ele mesmo chama os seus discípulos.
Em Mateus, Jesus muda a prática rabínica também
em outros pontos - os discípulos não serão meros
ouvintes do ensinamento do Mestre, mas colaboradores na sua missão;
as multidões também seguirão Jesus, buscando n’Ele
algo que não encontravam nos mestres oficiais das sinagogas (4,
25; 8, 1; 12, 15; 14, 13 etc.); num segundo momento, Jesus vai fazer
uma crítica a este seguimento, mostrando que segui-Lo vai muito
além daquilo que os discípulos e as multidões tinham
imaginado - será tomar sobre si a sua cruz (16, 24).
É interessante observar os detalhes do chamamento dos primeiros
discípulos para serem “pescadores de homens” (“pescador”
é uma das duas principais imagens para o ministério no
Novo Testamento. A outra, a de pastor, tem menor conotação
missionária) - dois estavam lançando as redes e dois estavam
consertando-as. Assim, o evangelho mostra a dinâmica da vida cristã
- tem hora para lançar redes (a ação missionária)
e hora para consertá-las (cuidar mais da vida interna das pessoas
e da comunidade). A rede pode significar a comunidade dos discípulos.
Com o tempo, as redes dos pescadores se rompiam, por causa dos detritos
apanhados, e precisavam ser consertados, pois rede rompida não
pega peixe. O mesmo acontece com a vida cristã, tanto no nível
individual como o comunitário - com o tempo podemos romper as
redes, enfraquecendo a nossa missão. Consertar as redes simboliza
o refazer dos elos de união entre nós e Deus, e entre
os próprios irmãos e irmãs. Mas, como rede consertada
também não apanha peixe se não for lançada,
assim a comunidade cristã não pode ficar voltada sobre
si mesma, numa vida somente interna; mas, esta vida forte de união
interna deve levar de volta à missão.
As imagens do chamamento nos advertem contra dois extremos que distorcem
o seguimento de Jesus - um ativismo desenfreado, só voltado para
fora, e que descuida da vida interior das pessoas e das comunidades,
de um lado, e uma vida só voltada para dentro, do outro, fazendo
da experiência espiritual algo intimista e individual, que não
leva à missão. Para o cristão, a missão
brota da intimidade com Jesus e leva a aprofundar esta intimidade. A
intimidade com Jesus leva de volta à missão e é
alimentada pela experiência da missão. Todo cristão
e cristã é chamado a ser “pescador de homens”,
colaborador na construção do Reino de Deus que já
está no meio de nós.