Evangelho
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se, e Jesus começou a ensiná-los:
"Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é
o Reino dos Céus. Bem-aventurados os aflitos, porque serão
consolados. Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque
serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão
misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus. Bem-aventurados os que promovem a paz, porque
serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os que são
perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino
dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem
e, mentindo, disserem todo o tipo de mal contra vós, por causa
de mim.
Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa
nos céus". - Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Esses primeiros versículos do Cap. 5 servem ao mesmo tempo como
introdução e como resumo do Sermão da Montanha.
Nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro/a discípulo(a),
daquele(a) que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do
Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta
de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente
– tanta a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora duma forma menos
contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro
que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa
maneira de pensar e viver.
Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato
de que a primeira e a última bem-aventurança estão
com o verbo no tempo presente – o Reino já é dos
pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça
– na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça
verdadeira são “pobres em espírito”. Eles
já vivem a dependência total de Deus, pois só com
Ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça é
perseguido – e quem não se empenha nessa luta jamais poderá
ser “pobre em espírito”.
As outras bem-aventuranças traçam as características
de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa
das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade
materialista e consumista. É manso, não no sentido de
passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência
que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando”
os pobres e fracos.
Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas
vezes não passa duma legitimação oficial da exploração
e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio
Pai do Céu, e é “puro de coração”,
sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a
paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”,
a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do
Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça
é a o novo nome da paz!”
Jesus deixa clara a conseqüência de assumir esse projeto
de vida – a perseguição! Pois um sistema baseado
em valores anti-evangélicos não pode agüentar quem
a contesta e questiona, algo que a história dos mártires
do nosso continente testemunha muita bem. Qualquer igreja cristã
que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônica precisa
se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças
do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho, na língua
grega) é pedra-de-toque dessa fidelidade.