Evangelho
Ninguém pode servir a dois senhores. Com efeito, ou odiará
um e amará o outro, ou se apegará ao primeiro e desprezará
o segundo. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro.
Por isso vos digo: não vos preocupeis com a vossa vida quanto
ao que haveis de comer, nem com o vosso corpo quanto ao que haveis de
vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo
mais do que a roupa? olhai as aves do céu: não semeiam,
nem colhem, nem ajuntam em celeiros. E, no entanto, vosso Pai celeste
as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas? Quem
dentre vós, com as suas preocupações, pode acrescentar
um só côvado à duração da sua vida?
E com a roupa, por que andais preocupados? Aprendei dos lírios
dos campos, como crescem, e não trabalham e nem fiam. E, no entanto,
eu vos asseguro que nem Salomão, em toda sua glória, se
vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que
existe hoje e amanhã será lançada ao forno, não
fará ele muito mais por vós, homens fracos na fé?
Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer?
Ou, o que iremos beber? Ou, o que iremos vestir? De fato, são
os gentios que estão à procura de tudo isso: o vosso Pai
celeste sabe que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai, em
primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas
coisas vos serão acrescentadas. Não vos preocupeis, portanto,
com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará
consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal.
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje, quando voltamos a celebrar os domingos comuns, nos
mergulha de novo no espírito do Sermão da Montanha (Mt
5,1 – 7, 27). Coloca os ouvintes diante da sua escolha fundamental
na vida – a quem ou a que querem servir – a Deus, vivendo
os valores delineados no Sermão da Montanha, ou o Dinheiro, (que
a Bíblia TEB escreve com “D” maiúsculo), ou
seja, o Dinheiro como potência que escraviza o mundo a si? Embora
essa escolha seja exigência de todos os tempos e lugares, torna-se
mais urgente ainda em nossa sociedade de consumo, de exclusão
e de acumulação, que exclui a maioria absoluta da humanidade,
condenando-a uma vida de miséria e sofrimento. Jesus deixa bem
claro que os seus discípulos/as não podem assumir esses
valores consumistas e materialistas, se querem ser fiéis a Ele
e ao seu projeto do Reino de Deus.
Como conseqüência desse princípio, Jesus continua,
“por isso é que lhes digo: não fiquem preocupados
com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir”.
Com certeza uma declaração que soa como estranha a quase
todos nós, obrigados a lutar com insegurança para que
as nossas famílias tenham o que comer e vestir. Como não
se preocupar com essas coisas num mundo de insegurança, de desemprego,
de exclusão? Realmente seria no mínimo uma falta de sensibilidade
proclamar aos famintos ou esfarrapados que não era para se preocuparem
com a comida e a roupa. Então o que quer dizer esse trecho?
Essas palavras não são convite a descuidar dessas necessidades
básicas, que seria um atentado contra a vida, e portanto contra
a proposta de Jesus. A frase deve ser entendida no contexto da situação
da comunidade mateana pelo ano 85 DC, que parece ter sido uma comunidade
que tinha bastante gente próspera (p. ex. Mateus diz que são
os “pobres em espírito” que são bem-aventurados,
enquanto Lucas diz simplesmente “vocês, os pobres”!).
O sentido do texto gira ao redor do sentido do verbo grego “meirmnao”
que as nossas Bíblias traduzem como “preocupeis”
(Pastoral, TEB, Jerusalém, Ave Maria.). Isso obviamente não
quer dizer não cuidar, zelar, ocupar-nos, mas não deixar
que essas coisas nos absorvem de tal maneira que se tornam o absoluto
das nossas vidas. Assim, em lugar de usar essas frases para acalmar
os que sofrem falta dessas necessidades da vida, esse texto implica
uma denúncia duma sociedade excludente como a nossa, que obriga
a maioria das pessoas a dedicar-se totalmente à sobrevivência,
esgotando as suas forças físicas, espirituais e psicológicas
na luta diária de simplesmente sobreviver nesse mundo cruel.
Seria beirando a blasfêmia usar essas frases para apaziguar os
sofridos, falando chavões sobre a providência de Deus,
enquanto apoiamos e nos mergulhamos nos valores materialistas da sociedade
neoliberal, sem notar que essa mesma sociedade é a negação
de tudo que o Sermão da Montanha ensina sobre simplicidade, solidariedade,
justiça e o seguimento de Jesus. A chave da interpretação
do ensinamento de hoje está em v. 33: “Procurai primeiro
o Reino e a justiça de Deus , e tudo isso vos será dado
por acréscimo” (trad. TEB). Pois se criarmos um mundo ou
uma comunidade que vive os valores do Reino e a justiça de Deus
(não o que os homens consideram “justiça”
a partir de uma ideologia positivista que favorece os interesses da
minoria dominante), então teremos solidariedade, que garantirá
que todos tenham pelo menos o mínimo para ter uma vida digna
dos filhos e filhas de Deus.
Então, longe de ser “pano quente”, para que possamos
ignorar com tranqüilidade o sofrimento e carência de tantos,
o texto nos desafia para que descubramos sinceramente quais são
os nossos valores, os do Evangelho ou os do consumismo. É uma
questão vital para todos e todas que querem ser seguidores/as
de Jesus, pois “onde está o seu tesouro, aí estará
também o seu coração” (Mt 6,21.)