Evangelho
"Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "Nem
todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor, entrará no Reino dos
Céus, mas o que põe em prática a vontade de meu
Pai que está nos céus.
Naquele dia, muitos vão me dizer; 'Senhor, Senhor, não
foi em teu nome que profetizamos? Não foi em teu nome que expulsamos
demônios? E não foi em teu nome que fizemos muitos milagres?
Então eu lhes direi publicamente: jamais vos conheci. Afastai-vos
de mim, vós que praticais o mal.
Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática
é como um homem prudente, que construiu sua casa sobre a rocha.
Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas
a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha.
Por outro lado, quem ouve estas minhas palavras e não as põe
em prática é como o homem sem juízo, que construiu
sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos
sopraram e deram contra a casa, e a casa caiu, e sua ruína foi
completa!" - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje conclui o grande discurso da vida cristã, que
é o Sermão da Montanha. Depois de dar-nos as orientações
para uma vida de seguimento e discipulato, Jesus termina insistindo
na necessidade da nossa fé nos levar à prática
das obras do Reino de Deus. Não adianta uma fé que consiste
somente em adesão intelectual às verdades sobre Jesus,
pois precisa uma fé que nos leva a construir a justiça
do reino na nossa sociedade.
O
texto se divide em duas partes - a primeira parte, vv.21-23, adverte
contra uma religião, mesmo no nome do seguimento de Jesus, que
não compromete com a luta em favor da justiça. Parece
que na comunidade de Mateus, por volta do ano 90, havia uma tendência
entre alguns de invocar o nome de Jesus, profetizar, fazer milagres,
expulsar demônios, e ir atrás de manifestações
extraordinárias do Espírito, sem que se comprometessem
com a construção do Reino da justiça. As palavras
de Jesus para essas pessoas soam duras - chama-as de malfeitores, pois
não se empenham na realização do projeto dele,
mas se vangloriam dos seus milagres e dons que chamam a atenção,
mas que não brotam duma vida de comprometimento com o Reino de
Deus.
É
atual esta advertência do texto, pois hoje também há
muitas vezes a tendência de buscar uma religião de "sinais"
e milagres, de manifestações aparentemente milagrosas
do Espírito, mas que muitas vezes pode esconder uma opção
individualista, intimista, sem conseqüências para a construção
da sociedade que Deus quer. Assim a religião torna-se alienante
e não fermento na massa, sal da terra, luz do mundo.
A
segunda parte do texto, vv.24-27, usa uma imagem bastante comum na Palestina
de Jesus - as enchentes repentinas que resultavam das chuvas torrenciais
da época do inverno, e que causavam estragos nas vilas e roças.
Usa a imagem da construção de casas - uma feita com alicerce,
outra sem. De fato, a falta dum alicerce firme não se faz sentir
no tempo de bonança. As construções parecem igualmente
sólidas. Mas na tempestade, das enxurradas e enchentes, logo
se revela qual é a casa com alicerce, e qual carece dum fundamento.
É nessa hora que se revela tudo. Assim também com a vida
cristã - enquanto tudo corre bem, não se manifesta a presença
ou a falta do alicerce. Mas quando batem as ventanias da vida, quando
acontecem as enxurradas que ameaçam levar embora o que nós
construímos, então se revela a presença ou a ausência
dum alicerce. Isso pode acontecer no casamento, na vida religiosa e
sacerdotal, no empenho pastoral. Enquanto tudo corre bem, não
há problema. Porém é só uma vida com fundamento
forte que resistirá as pressões dos contratempos da caminhada!
Mateus deixa bem claro qual deve ser o alicerce duma vida cristã
- tem que ser Jesus e o seu projeto de vida, manifestado nas palavras
do Sermão da Montanha. Uma vida cristã, uma vida missionária,
uma vida religiosa construida sobre qualquer outro alicerce, está
condenada a desmoronar.
Portanto
somos convidados a fazer uma revisão honesta e sincera da nossa
vida em todos os sentidos. Qual é o alicerce sobre o que construo
a minha vida - sobre algo movediço, que não resiste a
prova do tempo e do desgaste diário, ou sobre o único
alicerce que é rocha firme, inabalável e permanente -
Jesus de Nazaré, e o seu projeto do Reino. A minha religião
se baseia só no ouvir e no falar, ou me leva a um engajamento
real para que o mundo se torne aquele que Deus sonha? O texto de hoje
reforça uma outra frase lapidar do Sermão: "Se a
justiça do vocês não for maior do que a dos escribas
e fariseus, não entrarão no Reino dos Céus"(6,20).
Fortaleçamos o alicerce da nossa vida cristã, fundamentando-a
cada vez mais em Jesus, nas suas palavras, para que possa agüentar
as enxurradas e enchentes e ventanias que a vida traz. Outro caminho
é receita para o desastre!