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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Décimo Primeiro Domingo Comum - 16 de Junho de 2002
"A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos" - Mateus 9,36-10,8

Evangelho
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: "A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!"
Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doenças e enfermidades.
Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus.
Jesus enviou estes doze , com as seguintes recomendações: "Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: 'O Reino dos Céus está próximo'. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!" - Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
O texto de hoje fecha a seção de 4,23 - 9, 34, que manifesta Jesus como Messias em palavra e ação, e abre caminho para a missão dos discípulos e o discurso missionário do Cap. 10. Coloca a missão dos discípulos - portanto de nós cristão hoje, individual e eclesialmente - como continuação e atualização da missão de Jesus. E não deixa dúvida sobre a natureza dessa missão. No versículo 35 fala que Jesus "percorria as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade". A estrutura da frase mostra que o cerne era a Boa Notícia do Reino - Reino de libertação de todos os males, espirituais, econômicos, sociais e materiais. Essa chegada do Reino em Jesus constituía então o conteúdo do seu ensinamento nos sinagogas e era demonstrada pelas curas, entendidas como libertação do poder do mal.

Mas Jesus não era somente um curador! Ele era movido por compaixão - não por pena, mas "compaixão", um termo que significa "sofrer com" alguém. O termo grego usado, "splanchnizein", deriva-se da palavra para "entranhas", símbolo da sede das emoções. Ele sente "nas entranhas" o sofrimento do povo abandonado pelos seus lideres espirituais, mais preocupados com ritos e estruturas religiosos do que com as pessoas, e pelos líderes políticos, mais engajados em se enriquecer às custas do povo. A imagem do pastor é comum na Bíblia como termo que descreve liderança religiosa e legal (cf. Nm 27,17; Ez 34,5; I Rs 22,17; 2 Cr 18,16; Zc 10,2; 13,17; Mt 10,6; 15,24; 18,12; 26,31). O que dizer da situação do nosso povo hoje? Será que é tão diferente? Quanta descrença e cinismo diante dos políticos, diante das provas de corrupção e impunidade! E será que nós, que somos duma certa maneira líderes religiosos, sempre mostramos para os sofredores o rosto misericordioso do Deus verdadeiro. Ou o escondemos atrás de legalismos, casuísmos, e ritualismo? Diante da crescente clericalização e centralização do poder na Igreja, vale a pena uma análise honesta das nossas atitudes e prioridades.

Mas Jesus não é derrotista nem pessimista. Diante do desafio das ovelhas sem pastor, ele vê uma oportunidade de fazer colheita. Mas reconhece a escassez de operários e operárias! Sempre se usa esse texto para estimular um crescimento nas vocações sacerdotais e religiosas - com razão. Mas é muito mais abrangente no seu alcance. Pois todo batizado é conclamado a ser "trabalhador na messe". Não há duas classes de cristãos - todos participam na missão sacerdotal, profética e régia de Jesus. Todos, sem exceção, têm o dever de ser missionários - não num sentido proselitista, somente angariando mais adeptos para a sua Igreja, mas no sentido de semear e regar o Reino, de mostrar a misericórdia de Deus, de lutar junto com pessoas de boa vontade para que cresça o mundo de justiça, solidariedade e verdadeira paz que Deus quer! Mas Jesus insiste na oração, pois somente uma comunidade que nutre a sua fé pela oração será capaz de gerar pessoas comprometidas com o Reino e à missão.

O trecho termina com a vocação dos Doze - e aqui Mateus une a noção de discipulado e Apóstolo. Têm uma missão clara - expulsar espíritos maus, e curar todo tipo de doença. As doenças eram entendidas naquela época como sinal da dominação dos poderes do mal. Cumpre perguntar - quais são os espíritos maus da sociedade de hoje que devem ser exorcidos, quais as enfermidades a serem curadas? Hoje tem mania de demonizar tudo, em certos setores e movimentos das Igrejas - mas muito mais do que a capeta tradicional, existem os espíritos maus de ganância, egoísmo, individualismo, exclusão, que tomam corpo, não em possessão demoníaco, mas no sistema pecaminoso do neoliberalismo, excludente, na busca desenfreada de lucro sem levar em conta as conseqüências sociais, da dominação da lei selvagem do mercado, na proliferação de religião alienante. Como Jesus chamou os Doze para lutar contra os males que oprimiam o povo do seu tempo, nos chama hoje, à mesma missão, diante dos desafios do mundo moderno. Cada um(a) pode adicionar o seu nome ao rol dos chamados em Mateus. Neste mês em que se lançou a Mutirão contra a fome e a miséria, em que se organiza o plebiscito popular contra a ALCA, não falta oportunidade para cada cristão engajar-se de maneira concreta nessa luta. A alternativa é ficar acomodado numa religião individualista e intimista, juntando-nos às fileiras dos pastores maus, que deixam as ovelhas abandonadas à sua sorte.

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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