Evangelho
Naquele tempo, vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas,
porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm
pastor. Então disse a seus discípulos: "A messe é
grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono
da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!"
Jesus chamou os doze discípulos e deu-lhes poder para expulsarem
os espíritos maus e para curarem todo tipo de doenças
e enfermidades.
Estes são os nomes dos doze apóstolos: primeiro, Simão
chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu,
e seu irmão João; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus,
o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão,
o Zelota, e Judas Iscariotes, que foi o traidor de Jesus.
Jesus enviou estes doze , com as seguintes recomendações:
"Não deveis ir aonde moram os pagãos, nem entrar
nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas
da casa de Israel! Em vosso caminho, anunciai: 'O Reino dos Céus
está próximo'. Curai os doentes, ressuscitai os mortos,
purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes,
de graça deveis dar!" - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje fecha a seção de 4,23 - 9, 34, que manifesta
Jesus como Messias em palavra e ação, e abre caminho para
a missão dos discípulos e o discurso missionário
do Cap. 10. Coloca a missão dos discípulos - portanto
de nós cristão hoje, individual e eclesialmente - como
continuação e atualização da missão
de Jesus. E não deixa dúvida sobre a natureza dessa missão.
No versículo 35 fala que Jesus "percorria as cidades e povoados,
ensinando em suas sinagogas, pregando a Boa Notícia do Reino
e curando todo tipo de doença e enfermidade". A estrutura
da frase mostra que o cerne era a Boa Notícia do Reino - Reino
de libertação de todos os males, espirituais, econômicos,
sociais e materiais. Essa chegada do Reino em Jesus constituía
então o conteúdo do seu ensinamento nos sinagogas e era
demonstrada pelas curas, entendidas como libertação do
poder do mal.
Mas
Jesus não era somente um curador! Ele era movido por compaixão
- não por pena, mas "compaixão", um termo que
significa "sofrer com" alguém. O termo grego usado,
"splanchnizein", deriva-se da palavra para "entranhas",
símbolo da sede das emoções. Ele sente "nas
entranhas" o sofrimento do povo abandonado pelos seus lideres espirituais,
mais preocupados com ritos e estruturas religiosos do que com as pessoas,
e pelos líderes políticos, mais engajados em se enriquecer
às custas do povo. A imagem do pastor é comum na Bíblia
como termo que descreve liderança religiosa e legal (cf. Nm 27,17;
Ez 34,5; I Rs 22,17; 2 Cr 18,16; Zc 10,2; 13,17; Mt 10,6; 15,24; 18,12;
26,31). O que dizer da situação do nosso povo hoje? Será
que é tão diferente? Quanta descrença e cinismo
diante dos políticos, diante das provas de corrupção
e impunidade! E será que nós, que somos duma certa maneira
líderes religiosos, sempre mostramos para os sofredores o rosto
misericordioso do Deus verdadeiro. Ou o escondemos atrás de legalismos,
casuísmos, e ritualismo? Diante da crescente clericalização
e centralização do poder na Igreja, vale a pena uma análise
honesta das nossas atitudes e prioridades.
Mas
Jesus não é derrotista nem pessimista. Diante do desafio
das ovelhas sem pastor, ele vê uma oportunidade de fazer colheita.
Mas reconhece a escassez de operários e operárias! Sempre
se usa esse texto para estimular um crescimento nas vocações
sacerdotais e religiosas - com razão. Mas é muito mais
abrangente no seu alcance. Pois todo batizado é conclamado a
ser "trabalhador na messe". Não há duas classes
de cristãos - todos participam na missão sacerdotal, profética
e régia de Jesus. Todos, sem exceção, têm
o dever de ser missionários - não num sentido proselitista,
somente angariando mais adeptos para a sua Igreja, mas no sentido de
semear e regar o Reino, de mostrar a misericórdia de Deus, de
lutar junto com pessoas de boa vontade para que cresça o mundo
de justiça, solidariedade e verdadeira paz que Deus quer! Mas
Jesus insiste na oração, pois somente uma comunidade que
nutre a sua fé pela oração será capaz de
gerar pessoas comprometidas com o Reino e à missão.
O
trecho termina com a vocação dos Doze - e aqui Mateus
une a noção de discipulado e Apóstolo. Têm
uma missão clara - expulsar espíritos maus, e curar todo
tipo de doença. As doenças eram entendidas naquela época
como sinal da dominação dos poderes do mal. Cumpre perguntar
- quais são os espíritos maus da sociedade de hoje que
devem ser exorcidos, quais as enfermidades a serem curadas? Hoje tem
mania de demonizar tudo, em certos setores e movimentos das Igrejas
- mas muito mais do que a capeta tradicional, existem os espíritos
maus de ganância, egoísmo, individualismo, exclusão,
que tomam corpo, não em possessão demoníaco, mas
no sistema pecaminoso do neoliberalismo, excludente, na busca desenfreada
de lucro sem levar em conta as conseqüências sociais, da
dominação da lei selvagem do mercado, na proliferação
de religião alienante. Como Jesus chamou os Doze para lutar contra
os males que oprimiam o povo do seu tempo, nos chama hoje, à
mesma missão, diante dos desafios do mundo moderno. Cada um(a)
pode adicionar o seu nome ao rol dos chamados em Mateus. Neste mês
em que se lançou a Mutirão contra a fome e a miséria,
em que se organiza o plebiscito popular contra a ALCA, não falta
oportunidade para cada cristão engajar-se de maneira concreta
nessa luta. A alternativa é ficar acomodado numa religião
individualista e intimista, juntando-nos às fileiras dos pastores
maus, que deixam as ovelhas abandonadas à sua sorte.