Evangelho
Naquele tempo, partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado
na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se
levantou e seguiu a Jesus.
Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos
cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus
e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos
discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores
de impostos e pecadores?"
Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde
não precisão de médico, mas sim os doentes. Aprendei,
pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'.
De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores"
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto nos apresenta uma polêmica entre Jesus e os doutores da
Lei, por causa da sua prática evangélica. Lembremo-nos
que o Evangelho de Mateus foi escrito pelo ano 85/90, num contexto de
luta entre o judaísmo rabínico formativo, baseado na interpretação
farisaica da Lei, e o judaísmo-cristão da comunidade mateana,
baseado na interpretação e prática de Jesus. Um
ponto fundamental na prática farisaica era o conceito de "puro"
e "impuro", não no sentido de castidade, mas no sentido
ritual ou cultual. Certas pessoas, por serem impuras, eram consideradas
inaptas para participar no culto, e assim marginalizadas pela comunidade
ortodoxa. Jesus, também um mestre judaico, aqui rompe com a prática
dos fariseus - não com o intuito de destruir o judaísmo,
mas para salvar os seus membros, cada vez mais marginalizados pelos
preceitos de pureza.
O
relato começa com a vocação do cobrador de impostos
(ou publicano, pois o imposto se chamava "publicum", um tipo
de ICMS daquela época), chamado Mateus, apelido de Levi em outros
textos (Lc 5,27-32; Mc 2,13-17). Os cobradores de impostos eram marginalizados
porque colaboravam com o poder opressor romano, e porque tiraram o seu
lucro cobrando a mais através de extorsão. Jesus, quando
entra na casa de Mateus para uma refeição, misturando-se
com outros publicanos e pecadores, infringe prescrições
fundamentais farisaicas e entra em comunhão com essas pessoas
marginalizadas. O termo "pecadores" era um termo técnico
da época para membros de profissões desprezadas e consideradas
suscetíveis de impureza ritual. Uma lista indica pessoas que
trabalhavam com asnos ou camelos, marinheiros, pastores, comerciantes,
médicos (por causa do sangue), açougueiros, curtidores
e cobradores de impostos como membros dessa categoria de "pecadores".
Jesus se defende usando um provérbio de bom senso, também
conhecido nos escritos de outros autores como Plutarco. Como o médico
tem que se expor ao contágio para curar doentes, o médico
espiritual se expõe à impurezas legais para salvar os
marginalizados. Mateus usa aqui (e em 12,7) uma frase tirada de (Os
6, 6), que contesta a prática dos legalistas. Esses evitam qualquer
contato com "impuros", em nome de Deus, para poderem participar
do culto. Assim, a prática ritual se torna mais importante do
que a prática de misericórdia. E tudo feito em nome de
Deus, que é misericórdia! A misericórdia de Deus
não somente acolhe, mas vai em busca dos perdidos, e os reintegra
na comunidade de fé, como também mostra especialmente
Lucas (cf. Lc 15).
O
texto pode nos levar a questionar a nossa prática de misericórdia.
Pois nós também criamos categorias de "puros"
e "impuros", muitas vezes em nome de Deus. Sempre existe a
tendência de formar comunidades elitizadas, que se gabam ser praticantes,
observadoras da lei, e quem sabe, desprezam, sem que digam isso, os
que não correspondem aos seus critérios. Como são
tratadas as pessoas com problemas de divórcio, de vícios,
ou com outra orientação sexual, em nossas comunidades?
As nossas comunidades se assemelham a Jesus, que ia atrás das
pessoas taxadas de impuras no seu tempo, ou se assemelham aos fariseus,
que se fechavam nos seus rituais e rotulavam e marginalizavam os outros
- comunicando um Deus mais preocupado com a pureza ritual do que com
a misericórdia? Jesus não condena o sacrifício
e os ritos, mas denuncia a situação quando o apego a eles
leva ao abandono do mandamento fundamental de misericórdia. Para
todos nós ressoa fortemente o desafio lançado por Jesus
"aprendam, pois, o que significa: Eu quero a misericórdia
e não o sacrifício". Seja Jesus o nosso modelo de
compaixão, para não cairmos numa prática religiosa
que rotula e marginaliza, em nome de Deus, exatamente os que mais precisam
sentir o seu rosto misericordioso e compassivo.