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Congregação Missionária Servas do Espírito Santo - Província Stella Matutina - SP/SP


Décimo Domingo Comum - 9 de Junho de 2002
"Eu quero a misericórdia e não o sacrifício" - Mateus 9,9-13

Evangelho
Naquele tempo, partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: "Segue-me!" Ele se levantou e seguiu a Jesus.
Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: "Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?"
Jesus ouviu a pergunta e respondeu: "Aqueles que têm saúde não precisão de médico, mas sim os doentes. Aprendei, pois, o que significa: 'Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores" - Palavra da Salvação

Reflexão do Evangelho
O texto nos apresenta uma polêmica entre Jesus e os doutores da Lei, por causa da sua prática evangélica. Lembremo-nos que o Evangelho de Mateus foi escrito pelo ano 85/90, num contexto de luta entre o judaísmo rabínico formativo, baseado na interpretação farisaica da Lei, e o judaísmo-cristão da comunidade mateana, baseado na interpretação e prática de Jesus. Um ponto fundamental na prática farisaica era o conceito de "puro" e "impuro", não no sentido de castidade, mas no sentido ritual ou cultual. Certas pessoas, por serem impuras, eram consideradas inaptas para participar no culto, e assim marginalizadas pela comunidade ortodoxa. Jesus, também um mestre judaico, aqui rompe com a prática dos fariseus - não com o intuito de destruir o judaísmo, mas para salvar os seus membros, cada vez mais marginalizados pelos preceitos de pureza.

O relato começa com a vocação do cobrador de impostos (ou publicano, pois o imposto se chamava "publicum", um tipo de ICMS daquela época), chamado Mateus, apelido de Levi em outros textos (Lc 5,27-32; Mc 2,13-17). Os cobradores de impostos eram marginalizados porque colaboravam com o poder opressor romano, e porque tiraram o seu lucro cobrando a mais através de extorsão. Jesus, quando entra na casa de Mateus para uma refeição, misturando-se com outros publicanos e pecadores, infringe prescrições fundamentais farisaicas e entra em comunhão com essas pessoas marginalizadas. O termo "pecadores" era um termo técnico da época para membros de profissões desprezadas e consideradas suscetíveis de impureza ritual. Uma lista indica pessoas que trabalhavam com asnos ou camelos, marinheiros, pastores, comerciantes, médicos (por causa do sangue), açougueiros, curtidores e cobradores de impostos como membros dessa categoria de "pecadores". Jesus se defende usando um provérbio de bom senso, também conhecido nos escritos de outros autores como Plutarco. Como o médico tem que se expor ao contágio para curar doentes, o médico espiritual se expõe à impurezas legais para salvar os marginalizados. Mateus usa aqui (e em 12,7) uma frase tirada de (Os 6, 6), que contesta a prática dos legalistas. Esses evitam qualquer contato com "impuros", em nome de Deus, para poderem participar do culto. Assim, a prática ritual se torna mais importante do que a prática de misericórdia. E tudo feito em nome de Deus, que é misericórdia! A misericórdia de Deus não somente acolhe, mas vai em busca dos perdidos, e os reintegra na comunidade de fé, como também mostra especialmente Lucas (cf. Lc 15).

O texto pode nos levar a questionar a nossa prática de misericórdia. Pois nós também criamos categorias de "puros" e "impuros", muitas vezes em nome de Deus. Sempre existe a tendência de formar comunidades elitizadas, que se gabam ser praticantes, observadoras da lei, e quem sabe, desprezam, sem que digam isso, os que não correspondem aos seus critérios. Como são tratadas as pessoas com problemas de divórcio, de vícios, ou com outra orientação sexual, em nossas comunidades? As nossas comunidades se assemelham a Jesus, que ia atrás das pessoas taxadas de impuras no seu tempo, ou se assemelham aos fariseus, que se fechavam nos seus rituais e rotulavam e marginalizavam os outros - comunicando um Deus mais preocupado com a pureza ritual do que com a misericórdia? Jesus não condena o sacrifício e os ritos, mas denuncia a situação quando o apego a eles leva ao abandono do mandamento fundamental de misericórdia. Para todos nós ressoa fortemente o desafio lançado por Jesus "aprendam, pois, o que significa: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício". Seja Jesus o nosso modelo de compaixão, para não cairmos numa prática religiosa que rotula e marginaliza, em nome de Deus, exatamente os que mais precisam sentir o seu rosto misericordioso e compassivo.

Pe. Tomaz Hughes - SVD

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