Evangelho
"Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos:" Não
tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não
seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido.
O que vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que
escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados!
Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem
matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir
a alma e o corpo no inferno! Não se vendem dois pardais por algumas
moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento
do vosso Pai.
Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão
todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que
muitos pardais. Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante
dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu
Pai, que está nós céus. Aquele, porém, que
me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu
Pai que está nós céus." - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
"Não tenham medo!" Essa orientação de
Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Este tipo de conselho
indica que o contrário era realidade, na comunidade para a qual
o evangelho se dirigia! Como somente se toma remédio quando se
tem uma doença, também somente se enfatiza a mesma coisa
com tanta ênfase quando é para combater um perigo na vida
duma comunidade. Então parece que medo era um problema para os
membros das comunidades mateanas. Medo de que? O trecho que antecede
o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16-25 Jesus fala das
perseguições que os seus discípulos terão
que enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil
("entregarão vocês aos tribunais"), perseguição
pela a autoridade religiosa judaica ("acoitarão vocês
nas sinagogas deles") e até perseguição e
rejeição pelos membros das suas próprias famílias
("irmão entregará à morte o próprio
irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão
contra os pais e os matarão"). Quando Mateus escreve essas
palavras, este cenário já era conhecido no meio das suas
comunidades. Pois enquanto nos primeiros anos da Igreja, os cristãos
eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não
muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, tolerados
pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de
"religião lícita", nos anos depois de 85dc tudo
mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan
bem Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo,
sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância
da Lei. Era urgente re-agrupar os judeus depois da destruição
de Jerusalém, e dar-lhes uma nova identidade. Para isso aparecia-lhes
necessário insistir na Lei, na sua interpretação
farisaica. Assim, o "desvio" cristão parecia algo que
pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos começaram
a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados na sua identidade
religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela sua comunidade
tradicional. Famílias se rachavam e os judeu-cristãos
eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas,
não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam
o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como
então não entrar em crise, ter medo?
Mateus
enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu
com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo?
A perseguição não era sinal de fracasso, mas de
fidelidade no seguimento de Jesus! Por isso, não deveriam ter
medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era
deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar de opção
de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade
do discipulado. Hoje, em geral. não somos perseguidos por causa
da nossa religião. Pelo menos enquanto limitamos a religião
à esfera privada. O mundo até aprova a religião
como opção particular, uma vez que não tenha conseqüências
sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa
tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que
veio "para que todos tenham a vida e a tenham em abundância"
(Jô 10,10). O mundo globalizado do neoliberalismo excludente,
que prega o "evangelho" da competitividade e o paraíso
do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a
partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião
dentro do templo, sim, mas aí de quem procura concretiza-la na
luta por terra, teto, salário, direitos humanos etc.
Por
isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz
"não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não
podem matar a alma". Devemos temer, sim, a tentação
de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta
e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as
com o seu "corpo" - templos, festas, honras, prédios
etc, mas matando a sua "alma" - a prática da opção
evangélica pelos oprimidos. O Brasil também tem os seus
mártires - e a lista é comprida - que deram a sua vida
nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários
e elites. É sinal duma igreja viva. Mas não é fácil
manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista,
aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim soa
atual a última advertência do trecho, "quem me renegar
diante os homens, eu também renegarei diante do meu Pai".
Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a
frase anterior, "quem der testemunho de mim diante dos homens,
também eu darei testemunho dele diante do meu Pai". Tanto
o testemunho como a renegação normalmente não se
faz com a boca, mas com as opções concretas em favor dos
oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial.
Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas
e encontros: "Não temais os que tudo
deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente
do medo de quem mente pra sobreviver".