Evangelho
Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: “Quem ama
seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno
de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não
é digno de mim.
Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é
digno de mim. Quem procura conservar a sua vida, vai perdê-la.
E quem perde a sua vida por causa de mim, vai encontrá-la.
Quem vos recebe, a mim recebe; e quem me recebe, recebe aquele que me
enviou. Quem recebe um profeta, por ser profeta, receberá a recompensa
de profeta. E quem recebe um justo, por ser justo, receberá a
recompensa de justo.
Quem der, ainda que seja apenas um copo de água fresca, a um
desses pequeninos, por ser meu discípulo, em verdade vos digo:
não perderá a sua recompensa”. - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O grande discurso missionário de Mateus termina com as palavras
do texto de hoje. De novo, deve ser colocado dentro do contexto socio-histórico
da comunidade de Mateus. Mais uma vez – como nos domingos passados
– o autor enfrenta o problema duma comunidade em situação
de conflito e perseguição. E o pior, este conflito e a
perseguição aconteciam também dentro do seio das
famílias, onde alguns membros aderiram à comunidade cristã
e outros não. De novo, Mateus liga a perseguição
à mística do seguimento, de Jesus quando em v.34 ele diz:
“Não pensem que vim trazer paz à terra; eu não
vim trazer a paz, e sim a espada”. Aqui retoma a imagem da Palavra
de Deus como “espada de dois gumes”, que exige opções
concretas, muitas vezes com conseqüências dolorosas. O seguimento
de Jesus exige freqüentemente decisões duras e nada pode
ser mais importante do que o Reino. Por isso Mateus diz que nem o amor
do pai ou da mãe pode ter mais importância do que o amor
a Jesus (Mateus suaviza a frase de Lucas 12,26 que diz que quem não
“odeia seu próprio pai, mãe, mulher, filhos, irmãs
e até a própria vida não pode ser meu discípulo”.
Na língua aramaica, pobre em vocábulos, a frase de Lucas
quer dizer duma maneira coloquial o que Mateus expressa como “amar
mais”. Não é "odiar” conforme se entende
a palavra em português).
A vivência dessas opções é, na prática,
o que significa “tomar a sua cruz”. Tomar a cruz não
é sofrer por sofrer. E a conseqüência da coerência
com a opção por Jesus. Mas não é para nos
assustarmos, pois temos a garantia que a busca de coerência com
essas opções nos darão como herança “encontrar
a vida” – a verdadeira vida em Deus.
O discipulado não é somente dureza. Teremos muitas oportunidades
de experimentar as suas recompensas – de sermos acolhidos exatamente
por causa dele (o sentido da “copo de água”). Quantas
vezes a pregação da “cruz” tem trazido conotações
negativas, como se seguir Jesus fosse um sofrimento sem fim. Pelo contrário,
exige dedicação sacrifício e desprendimento –
que acarreta também sofrimento – mas as suas alegrias são
muito maiores. O seguimento de Jesus deve ser uma alegria – não
somente um obedecer de leis, a prática duma moral ou ética,
um acreditar em dogmas, que muitas vezes parecem ter pouca coisa a ver
com as nossas vidas! É uma experiência de seguir as pegadas
do mestre, de ser colaborador(a) na sua missão, de sentir-nos
realizadas como pessoas e cristãos por termos procurado colaborar
na construção do Reino, com todas as nossas limitações
e erros. É um privilégio e não um peso!