Evangelho
Naquele tempo, Jesus pôs-se a dizer: Eu te louvo, ó Pai,
Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos
sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos. Sim, Pai,
porque assim foi do teu agrado.
Tudo me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o filho,
senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, se não o
filho e aquele a quem o filho o quiser revelar. Vinde a mim todos vós
que estais cansados e fadigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos
darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim,
porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis
descanso. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve."
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Os primeiros três versículos do texto não têm
uma vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus
os coloca, (Lucas situa o ditado num outro contexto) e por isso “essas
coisas” não se refere ao que veio antes no capítulo
(a condenação de Corozaim e Betsaida), mas aos “mistérios
do Reino”, que são revelados aos pequenos e humildes (neste
contexto, os discípulos) e escondido aos que se acham auto-suficientes
na sua sabedoria e estudo (os fariseus e doutores da Lei) (cf. Mt 13,
11). Essa oração de louvor de Jesus brotava da sua própria
experiência na missão – que enquanto a sua pessoa
e o seu ensinamento e projeto de vida foram rejeitados pela elite política,
econômica e religiosa da época, os pobres e massacrados
pelo sistema o acolheu. A auto-suficiência da elite impediu que
ela pudesse reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua espiritualidade
do Servo de Javé, conseguiram em grande parte alcolhê-lo,
mesmo sem compreender inteiramente a profundeza da sua identidade.
O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos
Sapienciais, podemos ver reflexos de Pr 8, onde a Sabedoria é
personificada, Eclo 51, 1—12, 13-30 e Sab 6-8. Mas também
nos faz lembrar de textos apocalípticos como Daniel, onde os
sábios são incapazes de decifrar o sentido do sonho de
Nabucodonosor (Dn , 2, 3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando na
revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria
(Dn 2,23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio
Deus (Dn 2,44). No tempo de Jesus, os sábios também não
conseguiram decifrar os mistério do Reino de Deus, um dom que
é dado os humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos
(Mt 10,42) a quem é revelado o mistério do Reino dos Céus
(Mt 13,11).
Os versículos 26-28 são importantes, pois afirmam o relacionamento
único entre Jesus e o seu “Abbá”, Pai. Aqui,
a comunidade mateana expressa a sua fé em Jesus como Filho Absoluto
do Pai Absoluto. É uma de três passagens em Mateus nas
quais Jesus expressa, duma maneira indireta, ter uma relação
única com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21, 37 e 24,36.
A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo
Testamento (cf. Jr 2,20; Jr 5,5; Os 10,11). No judaísmo do tempo
de Jesus era usada como imagem da Lei de Deus escrita e oral (cf. Eclo
6,24-30; 51, 26s). O termo não tinha necessariamente uma conotação
de peso ou opressão quando usado assim. O nosso texto usa a imagem
corrente para contrastar a interpretação farisaica da
Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas e conceitos
que excluíam muitos, com a interpretação de Jesus,
que não rejeita a Lei, mas lhe devolve o seu sentido original
– uma garantia de manter viva na comunidade o projeto libertador
de Javé. O problema não estava na Lei, mas na sua interpretação.
Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes
que ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência
religiosa um pesadelo para muito. A interpretação de Jesus
não é “light” - é exigente, pois exige
uma vivência de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação
e a rejeição de todo egoísmo e individualismo.
No fundo, é mais exigente do que a dos fariseus, pois não
se esgota em práticas externas, mas num processo infinito de
doação de si. Mas ele garante que este projeto de vida,
exigente como for, trará a alegria do Reino de Deus.
Esses últimos versículos nos levam a rever a nossa pregação,
a nosso interpretação da Lei de Deus, a nossa prática
pastoral. Pois, ao longo da história, muitas vezes a pregação
nas Igrejas e na catequese tem sido uma séria de legalismos moralizantes,
reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas, frequentemente
colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecido
para eles qualquer ajuda para carregá-los. Não poucas
vezes o seguimento de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à
vivência duma moral ou ética, sem a revelação
do Deus misericordioso e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra
que embora a religião exija leis e moral, fundamentalmente é
uma mística, uma experiência do amor de Deus que nos convida
a assumir o seu jugo como resposta, um jugo que não mata, mas
que liberta, que não esconde o rosto de Deus mas que traz a alegria
do Reino!