3º Domingo do Advento - 23 de dezembro de 2007
"És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?"
- Mateus 11,2-11
Evangelho
Naquele tempo, João estava na prisão. Quando ouviu falar
das obras de Cristo, enviou-lhe alguns discípulos, para lhe perguntarem:
“És tu aquele que há de vir ou devemos esperar um
outro?”
Jesus respondeu-lhes: “Ide contar a João o que estais ouvindo
e vendo: os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os
leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e os pobres são evangelizados. Feliz aquele que não se
escandaliza por causa de mim!”
Os discípulos de João partiram, e Jesus começou
a falar às multidões sobre João: “O que fostes
ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? O que fostes ver?
Um homem vestido com roupas finas? Mas os que vestem roupas finas estão
nos palácios dos reis. Então, o que fostes ver? Um profeta?
Sim, eu vos afirmo, e alguém que é mais do que profeta.
É dele que está escrito: ‘Eis que envio o meu mensageiro
à tua frente; ele vai preparar o teu caminho diante de ti’.
Em verdade vos digo, de todos os homens que já nasceram, nenhum
é maior do que João Batista. No entanto, o menor no Reino
dos Céus é maior do que ele”. - Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
O tempo de Jesus era uma época de expectativas. Dentro do sofrimento
do povo, duramente reprimido pela ocupação romana e pela
elite de Jerusalém, cresceu muito a esperança na vinda
de um Messias libertador, esperado há séculos. O primeiro
século da nossa era foi marcado pelo aparecimento de muitos líderes
populares, se propondo como Messias. Cada grupo da Palestina tinha as
suas expectativas sobre como seria a pessoa e a atuação
desse Messias prometido.
João, o Batista, era figura importante no cenário religioso
palestinense da época. Mt 3, 11-12 (o evangelho do Domingo passado)
nos apresenta a imagem do Messias apresentado pelo Precursor. Mas a
atuação concreta de Jesus, conforme relatada em Mt 8-9,
parecia destoar tanto dessa expectativa, que causava dúvidas
na mente de muita gente, inclusive para o Batista e seus discípulos.
Jesus era realmente o Esperado ou mais uma decepção para
o povo?
Jesus não se defende, explicando quem Ele é - pelo contrário,
mostra que é o Messias, pelo que Ele fazia! Usando textos do
profeta Isaías, Ele mostra que o Reino de Deus chegou n’Ele,
pois acontecem as obras de libertação que são características
do Reino: com os mortos (Is 26, 19), os surdos (Is 29, 18-19), os cegos,
coxos e pobres (Is 35, 5-6), e o anúncio da Boa-Nova aos pobres
(Is 61, 1). O messianismo de Jesus não se enquadrava dentro das
expectativas de muita gente, que esperava a derrota dos opressores,
mas não vislumbrava um mundo novo baseado em solidariedade e
justiça. Jesus veio estabelecer no meio de nós o Reino
de Deus, baseado no conceito de "justiça" - o restabelecimento
de relações corretas de cada pessoa com Deus, consigo
mesmo, com o outro e com a natureza. Veio realmente criar novas relações
- não somente velhas relações com os papéis
invertidos, onde o oprimido vira opressor.
Jesus sempre é questionador, pois Ele e o Seu projeto desafiam
as nossas expectativas. Para muitos, a proposta de Jesus era difícil
demais, pois mexia com o seu comodismo. Ele era uma novidade total que
não se enquadrava nos velhos esquemas - por isso Ele diz: “É
feliz de quem não se escandalizar (cair) por causa de mim”
(v. 11). Hoje também a pessoa e o projeto de Jesus desafiam a
todos - especialmente a nós cristãos. Pois, facilmente
temos a nossa idéia de como deve ser a figura do Messias - triunfal,
poderoso, milagreiro, que não mexe com as estruturas sociais,
políticas, econômicas da sociedade, que não nos
desafia para que criemos novas relações, na contramão
da sociedade materialista, individualista e consumista. Muitos hoje
preferem um Jesus “light” - que funciona como analgésico,
que nos apazigua a consciência, que nos dá emoções
fortes, mas que não nos joga na luta dura da criação
de uma nova sociedade baseada nos princípios do Reino!
E onde existe esse Reino? Existe onde se faz o que Jesus fazia - onde
os excluídos estão integrados, os rejeitados estão
acolhidos, a Boa-Nova de libertação total é pregada
e vivenciada, e se faz a vontade de Jesus que veio “para que todos
tenham a vida e a tenham em abundância”. (Jo 10, 10). Para
averiguar se a nossa atuação como cristãos, seja
individualmente seja em comunidade, está ou não de acordo
com o seguimento e prática de Jesus, podemos olhar mais de perto
aos elementos que caracterizavam a sua missão:
- os cegos recuperam a vista: ou seja, os que estavam cegados pelos
valores falsos pregados pela sociedade opressora do tempo de Jesus começam
a ver de novo com os olhos de Deus. A nossa atuação e
pregação desvendam os falsos valores da nossa sociedade
materialista de consumo ou os favorecem?
- os paralíticos andam; muita gente que tinha parado na vida,
sem esperança e sem força, começa a caminhar de
novo. A nossa pregação anima os desanimados para se unirem
na caminhada rumo a uma sociedade diferente?
- os leprosos são purificados; os excluídos (em nome das
leis de Deus) foram reintegrados por Jesus. As nossas comunidades são
acolhedoras, sabem interagir com problemas matrimoniais, de vício,
da orientação sexual, ou continuam moralistas com a auto-suficiência
dos fariseus?
- os surdos ouvem. Ouvem a Palavra de Deus de uma maneira totalmente
diferente da pregação comum dos fariseus e doutores da
Lei. Descobrem o verdadeiro rosto de Deus, revelado na sua Palavra -
misericordioso, compassivo e de perdão.
- os mortos ressuscitam. Tanta gente que não vivia mais, somente
existia numa vida sub-humana e indigna dos filhos/filhas de Deus redescobriram
a sua dignidade e recomeçaram a viver. Ajudamos a todos/as a
compreender e valorizar a sua dignidade?
- aos pobres é anunciada a Boa-Notícia. Na realidade,
os pobres são os primeiros destinatários da nossa pregação?
A Conferência de Aparecida (2007) retoma a opção
preferencial pelos pobres “com nova força” (nº.
399) e exige que tal opção seja transformada em ações
concretas não paternalistas (nº. 397). Nos ajuda a verificar
se isso acontece em nossa realidade, dando-nos um rol dos rostos dos
pobres hoje (nº. 65)
É este Jesus que aguardamos no Natal. Portanto, que Advento seja
também tempo de purificação das falsas imagens
d’Ele que talvez permeiem as nossas mentes. Pois, Jesus só
renasce onde as pessoas, sejam elas cristãs ou não, se
comprometem com as mesmas metas d’Ele, conforme o texto nos demonstra.
Felizes de nós se essas exigências não são
escândalo para nós! A novidade perene do Evangelho de Jesus
nos desafia a rompermos com os nossos velhos esquemas para que concretizemos
nas nossas vidas a vinda do Reino.