Evangelho
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: "O Reino dos
Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o
encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende
todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também
é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando
encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os
seus bens e compra aquela pérola.
O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada
ao mar, que apanha peixes de todo o tipo. Quando está cheia,
os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes
bons em cestos e jogam fora os que não prestam. Assim acontecerá
no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus
dos que são justos, e lançarão os maus na fornalha
de fogo. E ai haverá choro e ranger de dentes. Compreendestes
tudo isso?" Eles responderam: "Sim".
Então Jesus acrescentou: "Assim, pois, todo o mestre da
Lei que se torna discípulo do Reino dos Céus é
como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e
velhas". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Hoje terminamos a leitura do capítulo treze de Mateus, com as
últimas três parábolas do Reino – as do tesouro
escondido, da pérola preciosa e da rede lançada ao mar.
Nas primeiras duas podemos notar duas ênfases – uma sobre
o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e outra sobre a atitude
de quem o acha. A parábola da rede no mar ecoa a mensagem da
parábola do campo de trigo e joio, que fez parte do texto do
domingo passado.
O contexto histórico do tesouro achado é do Oriente Médio
Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática
comum enterrar os valores diante da ameaça duma invasão
ou guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria na violência,
e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado
por acaso.
Usando este exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude
do discípulo diante dele. O Reino de Deus é um valor tão
incalculável, que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo.
É importante notar que o texto enfatiza que “cheio de alegria”
ele vende todos os seus bens, para poder possuir o valor maior que é
o Reino. A vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus,
deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida é
exigente, pois meias-medidas não servem (ele vende tudo o que
tem), mas o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria
falsa dum programa de Faustão ou Sílvio Santos, mas uma
alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois descobrimos a única
coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida
– o Reino de Deus. É pena que, com tanta freqüência,
conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo,
que afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante
como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão chata e irrelevante.!
Mais uma vez, como na parábola do campo de trigo e joio, a última
parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega
santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação
final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência
diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas
sem indiferença ou comodismo.
O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho
que denominamos Mateus era um escriba ou doutor da Lei, convertido ao
discipulato de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais
dados aos autores dos Evangelhos são somente atribuições.
Nenhum evangelho identifica o seu autor, é e consenso absoluto
entre os exegetas que o Evangelho e Mateus não foi escrito pelo
apóstolo daquele nome). Ele está bem enraizado nas “coisas
antigas” - ou seja, no Antigo Testamento. Mas está aberto
às coisas novas, ou seja, à nova interpretação
da Lei que Jesus trouxe. Assim nos ensina algo valioso para o mundo
de hoje, tão inconstante e sem raízes dum lado e com a
tentação de fechamento no fundamentalismo e intolerância,
do outro. Nem tudo que é antigo é ultrapassado e nem tudo
que é novidade é boa. Igualmente, nem tudo que é
antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada.
É importante ter critérios, para que não percamos
os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de atualização
para os dias de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!