Evangelho
Naquele tempo, quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu
e foi de barco para um lugar deserto e afastado. Mas, quando as multidões
souberam disso, saíram das cidades e o seguiram a pé.
Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de
compaixão por eles e curou os que estavam doentes. Ao entardecer,
os discípulos aproximaram-se de Jesus e disseram: "Este
lugar é deserto e a hora já está adiantada. Despede
as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida!"
Jesus, porém, lhes disse: "Eles não precisam ir embora.
Dai-lhes vós mesmos de comer!" Os discípulos responderam:
"Só temos aqui cinco pães e dois peixes". Jesus
disse: "Trazei-os aqui".
Jesus mandou que as multidões se sentassem na grama. Então
pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o
céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu
os pães, e os deu aos discípulos. Os discípulos
os distribuíram às multidões.
Todos comeram e ficaram satisfeitos, e dos pedaços que sobraram,
recolheram ainda doze cestos cheios. E os que haviam comido eram mais
ou menos cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças. -
Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
No Evangelho de Mateus, o texto do Evangelho de hoje vem logo após
a história da morte de João Batista, ligada à festa
de aniversário do Tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta
o “Banquete da Morte” promovida por Herodes, com “O
Banquete da Vida”, protagonizado por Jesus!
O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação
dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado
nos quatro Evangelhos. Isso aponta à importância dada nas
primeiras comunidades a este relato, tanto que a sua memória
persistiu não somente nas comunidades da tradição
Sinótica (Mc, Mt, e Lc), mas também na Comunidade do Discípulo
Amado.
Mesmo fazendo leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6, 30-44; Lc
9, 10-17; Mt 14, 13-21; Jo 6, 1-15), alguns elementos importantes saltam
aos olhos:
1) A reação dos discípulos diante do problema da
fome da multidão. Nos Sinóticos, a solução
sugerida por eles é a de despedir a turba para que pudesse comprar
pão. Assim, ignora a situação dos que não
tinham possibilidade de comprar! É a solução de
muita gente hoje diante do escândalo da pobreza no mundo - que
se virem! Cada um para si! Quem não tem condições,
que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução”
- “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João,
Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo
também se revela uma solução inadequada. Jesus
insiste: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não
aceita nem a solução de “lavar as mãos”
diante da fome alheia ou de cair num assistencialismo. Ele desafia a
comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada numa
nova proposta de vida - a da partilha!
2) Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”!
O motivo é simples - se a ênfase caísse sobre o
“multiplicar” milagroso, teria poucas conseqüências
para os discípulos (nós, hoje), pois não temos
possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são
bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir” - porque
todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que
temos. O Brasil não precisa “multiplicar” terras,
bens ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar
e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos!
Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus
liga a sua narrativa à instituição eucarística
(Mt 26, 26). Também concentra a atenção nos pães,
pois neste relato somente eles são distribuídos. Assim
o texto nos lembra que a participação eucarística
exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos
bens necessários para a vida, e não na acumulação
da parte de alguns junto com a falta do básico para muitos. O
cristão não pode compactuar-se com uma sociedade organizada
conforme os princípios de Herodes, mas deve lutar para a construção
de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas do Jesus de Nazaré.
O texto de hoje relê Êx. 16, (o maná), Nm 11 (as
codornas) e 2Rs 4, 1-7.42-44 (onde Eliseu distribuiu óleo e pão).
O texto do Êx.16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às
custas dos outros leva à podridão.
É claro que diante do enorme sofrimento da maioria da população
do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram
os discípulos no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que
não devemos cair na cilada de aceitar as falsas propostas pela
sociedade vigente e hegemônica - ou de “lavar as mãos”
ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado
pela eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer
com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós
façamos o que é possível para a construção
de um mundo de justiça, e fraternidade.
Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão
dela e agiu. Com certeza ele olha hoje a situação de tantos
irmãos e irmãs e pede que os seus seguidores façam
algo para mudar a situação. Ultimamente, os jornais nos
trouxeram notícias do aumento assustador da fome no mundo por
causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços
de alimentos básicos como o arroz. Paira sobre nós cristãos
o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vos mesmos de comer!”
O que significa isso na prática para mim, para você, para
as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida?
Pe.
Tomaz Hughes - SVD