Evangelho
Depois da multiplicação dos pães, Jesus mandou
que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua
frente, para o outro lado do mar, enquanto ele despediria as multidões.
Depois de despedi-las, Jesus subiu ao monte, para orar a sós.
A noite chegou, e Jesus continuava ali, sozinho. A barca, porém,
já longe da terra, era agitada pelas ondas, pois o vento era
contrário. Pelas três horas da manhã, Jesus veio
até os discípulos, andando sobre o mar.
Quando os discípulos o avistaram, andando sobre o mar, ficaram
apavorados e disseram: "É um fantasma". E gritaram
de medo. Jesus, porém, logo lhes disse: "Coragem! Sou eu.
Não tenhais medo!" Então Pedro lhe disse: "Senhor,
se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre as água".
E Jesus respondeu: "Vem!"
Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água,
em direção a Jesus. Mas, quando sentiu o vento, ficou
com medo e, começando a afundar, gritou: "Senhor, salva-me!"
Jesus logo estendeu a mão, segurou Pedro e lhe disse: "Homem
fraco na fé, por que duvidaste?"
Assim que subiram no barco, o vento se acalmou. Os que estavam no barco,
prostraram-se diante dele, dizendo: "Verdadeiramente, tu és
o Filho de Deus!" - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
É comum ler nos jornais e revistas os resultados de pesquisas
que apontam o medo e a insegurança como as principais preocupações
do nosso povo – o medo da violência, do desemprego, da pobreza,
da solidão, da velhice e muitos outros. O medo parece até
tomar conta duma boa parta de nossas instituições –
o medo de tomar as medidas necessárias para uma justa reforma
agrária, por parte das autoridades competentes; o medo por parte
de muitos líderes religiosos diante dos desafios do mundo de
pós-modernidade, levando até a paralisia e o fechamento;
o medo de procurar novas soluções para novos desafios.
O medo parece ser a força motora da atividade – ou da falta
da mesma – de muitas pessoas, grupos e instituições.
A comunidade eclesial onde nasceu o Evangelho de Mateus também
sentia medo. Os seus membros (na sua quase totalidade judeu-cristãos,
bem diferente etnicamente das comunidades lucanas) enfrentavam a oposição
e a perseguição por parte das autoridades das sinagogas.
A comunidade estava em luta com o chamado “judaísmo formativo”,
para definir o rumo que o judaísmo iria tomar depois do desastre
de 70 d.C. quando foram destruídos Jerusalém e o Templo.
Com a eliminação, pela repressão romana ou por
guerra civil, dos Saduceus, dos Zelotas e dos Essênios, somente
dois grupos organizados sobreviveram para disputar a hegemonia dentro
do judaísmo – a linha farisaica e a linha judeu-cristã,
representada pela comunidade de Mateus. E era uma luta de muita radicalidade,
como costuma acontecer nas brigas fratricidas. O sofrimento da comunidade
de Mateus é retratado em Mt 10,22: “Sereis odiados
por todos por causa do meu nome. Mas quem perseverar até o fim
será salvo”.
É neste contexto que se entende o texto de hoje. Os discípulos,
ao verem Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A
comunidade de Mateus era semelhante – diante da perseguição
e do sofrimento, Jesus parecia para eles um fantasma – uma ilusão,
uma fugacidade, incapaz de dar sustento à sua vida comunitária
de fé. Diante do medo dos discípulos, Jesus é taxativo:
“Coragem! Não tenham medo! Sou eu!”. Mateus
relata essa história – acrescentando esses elementos ao
texto mais sóbrio de João 6,16-21 – para ajudar
a sua comunidade a entender que Jesus não é um fantasma,
mas uma presença real, vivificante, fortalecedor e libertador
no meio da comunidade, mesmo e especialmente na hora das dificuldades
e perseguições.
Tipicamente, o Evangelho de Mateus destaca à figura de Pedro
(como também em 16,13-20; 17,24-27). Pedro era personagem muito
importante em Antioquia, talvez o local da última redação
de Mateus. Aqui Pedro é o protótipo do discípulo
– cheio de amor e com uma fé enfraquecida pela dúvida.
O estender da mão de Jesus é um convite a Pedro, à
comunidade de Mateus, e a nós hoje para dar uns passos para o
desconhecido, para não nos fechar nas nossas seguranças,
freqüentemente falsas, que nós mesmos construímos,
mas de termos a coragem de enfrentar os ventos da vida, mesmo quando
contrários, pois Jesus está realmente conosco e como disse
Paulo “Se Deus está conosco, quem estará contra
nós?”(Rm 8,31).
Ter fé e não ter medo por causa de Jesus não quer
dizer: “Não tenham medo, confiem em Deus, e Ele garantirá
que as coisas que os amedrontam não lhes acontecerão”,
mas antes: “Não tenham medo, confiem em Deus. É
bem possível que as coisas que os amedrontam vão lhes
acontecer, mas não devem ter medo disso, porque Deus estará
ao seu lado”!
A fé em Deus não tira os nosso sofrimentos e dificuldades,
como querem tantos hoje, mas nos dá as forças necessárias
para vencê-las. Deus não é um analgésico
para as dores e dificuldades da vida, mas uma presença amorosa
que anima, fortaleça e estimula, pois, como disse Paulo “a
fraqueza de Deus é mais forte do que os homens”(I
Cor 1,25)