Evangelho
Naquele tempo, Jesus foi para a região de Tiro e Sidônia.
Eis que uma mulher cananeía, vindo daquela região, pôs-se
a gritar: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha
está cruelmente atormentada por um demônio!” Mas
Jesus não lhe respondeu palavra alguma.
Então seus discípulos aproximaram-se e lhe pediram: “Manda
embora essa mulher, pois ela vem gritando atrás de nós”.
Jesus respondeu: “Eu fui enviado somente às ovelhas perdidas
da casa de Israel”.
Mas a mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou
a implorar: “Senhor, socorre-me!” Jesus lhe disse: “Não
fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos”.
A mulher insistiu: "É verdade, Senhor; mas até os
cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos!”
Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, grande é a tua
fé! Seja feito como tu queres!” E desde esse momento sua
filha ficou curada. - Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
As comunidades de Mateus, semelhantes às nossas de hoje, viviam
certas tensões provenientes das diferentes tendências teológicas
e pastorais no seu meio. Uma das tensões – que aliás
causou muita dificuldade na Igreja primitiva, como Atos e as cartas
Paulinas testemunham – se referia à questão da integração
de judeus e pagãos nas comunidades cristãs, em pé
da igualdade. É esta tensão interna que está subjacente
à história relatada pelo texto de hoje.
Os versículos anteriores (15,1-20) versaram sobre a questão
do puro e impuro, especialmente em referência aos alimentos. Mas
entre as pessoas também havia classificação de
puro e impuro – uma distinção trazida para dentro
da comunidade mateana pelos convertidos da formação farisaica.
Os judeus não podiam comer com os pagãos para não
se contaminar. Jesus veio abolir tal distinção, tornando
acessível a qualquer um o dom de Deus, pela fé na sua
pessoa. Que esse princípio foi muito difícil para os judeu-cristãos
aceitar é bem ilustrado pela controvérsia que levou ao
Concílio de Jerusalém (At 15) e pela polêmica entre
Paulo e Pedro na Igreja de Antioquia – talvez o berço da
última redação de Mateus – como relatado
em Gal 2,11-14.
O local do relato é a região de Tiro e Sidônia –
o Líbano dos nosso tempos. Jesus é confrontado por uma
mulher desesperada por causa da doença da sua filha ("atormentada
por um demônio”, na visão da época). Ela é
uma pessoa duplamente marginalizada – por ser mulher sozinha num
mundo machista e patriarcal e por ser pagã, considerada irreversivelmente
impura pelos judeus. Num primeiro momento Jesus a ignora e nem responde.
Alguns autores, numa tentativa de suavizar esse atitude do Senhor, dizem
que ele estava testando a fé dela. Parece que o próprio
texto dá outra explicação – Jesus, nestas
alturas, considera a sua missão como sendo somente aos judeus,
para restaurar a Aliança quebrada. O diálogo parece-nos
até chocante pelo termo que Jesus usa para descrever as pessoas
de origem pagã – “cachorrinhos”. Mas a mulher
usa este termo como gancho para reivindicar a sua atenção
– e acaba mudando a visão de Jesus. Diante da sua insistência,
motivada pela sua fé, ele lhe dá um louvor que ninguém
mais recebe em Mateus – o de ter “grande fé”.
Este trecho nos traz uma grande surpresa – Jesus aprofunda o sentido
da sua missão através do contato com uma mulher pagã
– uma pessoa duplamente rejeitada e desprezada nas tradições
da religião e cultura dele. Jesus só deseja ouvir a voz
do Pai – e aqui o Pai lhe fala através da cananéia!
Que lição para nós – quantas vezes ficamos
surdos diante da voz do Pai porque nos fechamos diante de pessoas consideradas
pela sociedade vigente, ou pelo legalismo religioso, como indignos,
impuros, ou desprezíveis! O Pai normalmente não nos fala
por grandes revelações extraordinárias, mas através
dos eventos, das pessoas e dos relacionamentos do nosso dia-a-dia, mas
a surdez de espírito nos torna indiferentes a esta revelação
diária!
Surpreende o entusiasmo com que Jesus louva a mulher: “Mulher,
que fé tão grande tens!”. Em que consistia essa
fé? Certamente não numa adesão aos dogmas do judaísmo,
da religião de Jesus, pois ela era gentia, ou pagã. Muito
mais consistia na certeza de que Deus atende os gritos dos excluídos
e sofridos desse mundo, que Deus é o Deus da vida e da vida plena
para todos/as (cf. Jo 10,10). Nós temos o privilégio de
termos essa verdade revelada em Jesus, mas embora adiramos às
doutrinas, dogmas e catecismos, cumpre nos questionarmos se realmente
acreditamos na ação libertadora de Deus em favor dos oprimidos.
Ou continuamos criando barreiras de “puros” e “impuros”
na sociedade e na Igreja de hoje? Que esse texto nos ajude para que
sejamos alertas aos sinais do tempos, para ouvirmos a voz do Deus vivo
nos falando no dia-a-dia das nossas vidas e que tenhamos a coragem de
mudar as nossas estruturas mentais, tantas vezes condicionadas por preconceitos
raciais, de gênero ou de religião, seguindo o exemplo revelador
de Jesus.