Evangelho
Naquele tempo Jesus foi à região de Cesaréia de
Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem dizem
os homens ser o Filho do Homem?" Eles responderam: "Alguns
dizem que é João Batista; outros, que é Elias;
outros, ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas".
Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que
eu sou?" Simão Pedro respondeu: "Tu és o Messias,
o Filho do Deus vivo"
Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz és tu, Simão,
filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso,
mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que
tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e
o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as
chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será
ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será
desligado nos céus." - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Hoje, a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro
e Paulo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho
de Cesaréia de Felipe. O relato original está no evangelho
de Marcos, Cap 8, onde se tornou o pivô de todo o Evangelho. A
estrutura de Mateus é diferente, mas o relato tem a mesma finalidade,
ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo
dele.
A
pedagogia do relato é interessante. Primeiro Jesus faz uma pergunta
assaz inócua: "quem dizem os homens que é o Filho
do Homem?" Assim, chove resposta, pois esta pergunta não
compromete, é o "diz que". Mas a segunda pergunta traz
a facada: "E vocês, quem dizem que eu sou?" Agora não
vem muita resposta, pois quem responde em nome pessoal, e não
dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade
sobre Jesus: "tu és o Messias, o Filho do Deus vivo".
Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, em Mateus, Jesus confirma
a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através duma revelação
do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé.
Mas,
para que entendamos bem o trecho, é mister que continuemos a
leitura pelo menos até v.25. Pois o assunto é mais complicado
do que possa parecer. Pois, após afirmar que Pedro tinha falado
a verdade, Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não
era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios
deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua
vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado
e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que
era o Messias, mas não o Messias que Pedro quis. Este, conforme
as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominador,
não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com ele, até
a Cruz! Por isso Pedro insiste com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse.
E como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia:
"Afasta-se de mim, satanás, você é uma pedra
de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus,
mas dos homens!" (v.23).
Pedro,
cuja proclamação de fé mereceu ser chamado a pedra
fundamental da Igreja (v.18), é agora chamado de Satanás
- o Tentador por excelência - e "pedra de tropeço"
para Jesus! Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática
errada! Usando os nossos termos de hoje, duma forma um tanto anacrônica,
podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis! E
assim Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa
ser seguidor dele: "Se alguém quer me seguir, renuncie a
si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me" (v.24). Ter fé em
Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual
ou teológica, mas uma prática, o seguimento dele na construção
do seu projeto, até as últimas conseqüências.
Hoje,
enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta
de Jesus ressoa forte - a segunda pergunta. Para nós, quem é
Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo
ou Pastor, mas para cada um de nós pessoalmente? E no fundo,
a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em
que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - ele que veio
para que todos tivessem a vida e a vida plenamente!(cf. Jo 10,10). Cuidemos
para que não caiamos na tentação do equívoco
de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada!