Evangelho
Naquele tempo, Jesus foi à região de Cesaréia de
Filipe e aí perguntou a seus discípulos: "Quem dizem
os homens ser o Filho do Homem?"
Eles responderam: "Alguns dizem que é João Batista;
outros, que é Elias; outros, ainda, que é Jeremias ou
algum dos profetas". Então Jesus lhes perguntou: "E
vós, quem dizeis que eu sou?" Simão Pedro respondeu:
"Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo".
Respondendo, Jesus lhe disse: "Feliz és tu, Simão,
filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso,
mas o meu Pai que está no céu. Por isso, eu te digo que
tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e
o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as
chaves do Reino do Céus: tudo o que tu ligares na terra será
ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será
desligado nos céus".
Jesus, então, ordenou aos discípulos que não dissessem
a ninguém que ele era o Messias - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Aqui temos a versão mateana da profissão de fé
de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o
seu evangelho. Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de
todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo
dele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta
depende muito da primeira. A minha visão de Jesus, determinará
a maneira do meu seguimento dele.
O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua:
"Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?" É
inócua, pois não compromete - o "diz que" não
compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros.
Por isso, chove respostas da parte dos discípulos: "João
Batista, Elias, Jeremias, ou um dos profetas!". Mas Jesus não
quer parar aqui - esta pergunta foi só uma introdução.
Depois vem a facada!:"E vocês, quem dizem que eu sou?"
Agora não chove respostas, pois quem responde vai se comprometer
- não será a opinião dos outros, mas a opinião
pessoal! Esta opinião traz conseqüências práticas
para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: "O Messias, o Filho
de Deus vivo". Aqui Mateus acrescenta vv.17-19, pois quer destacar
o papel de Pedro (e por conseguinte dos líderes da sua própria
comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade,
que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de "Igreja".
"As chaves do Reino" não se referem ao poder de perdoar
pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.
O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo
da profissão de Pedro "Tu és o Messias, o Filho de
Deus vivo". Mas continua no ar as duas perguntas que são
o cerne do Evangelho: "Quem é Jesus?", e "O que
significa segui-lo?" Pois os termos que Pedro usa são ambíguos,
porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso,
Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha: "Ele ordenou os
discípulos que não dissessem a ninguém que ele
era o Messias!" Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se
fala a verdade sobre ele! Como é que ele espera angariar discípulos
deste jeito? O assunto merece mais atenção.
Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de "ortodoxia",
conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever
Jesus. Mas Jesus quer esclarecer o que significa ser "O Messias
de Deus". Pois cada um pode entender este termo conforme os seus
desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser "messias" para
ele é ser o "Servo Sofredor" de Javé. É
vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a
um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas,
enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não o Messias nacionalista
e triunfalista das expectativas do então.
No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus "light",
sem exigênciais, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso
com a transformação social, o texto nos desafia para clarificar
em que Jesus acreditamos? O Jesus "Oba! Oba!" tão amado
por setores da mídia, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé,
que veio para dar a vida em favor de todos