Evangelho
Naquele tempo, Jesus disse a seus discípulos: "Se o teu
irmão pecar contra ti, vai corrigi-lo, mas em particular, a sós
contigo! Se ele te ouvir, tu ganhaste o teu irmão. Se ele não
te ouvir, toma contigo mais uma ou duas pessoas, para que toda a questão
seja decidida sob a palavra de duas ou três testemunhas.
Se ele não vos der ouvido, dize-o à Igreja. Se nem mesmo
à Igreja ele ouvir, seja tratado como se fosse um pagão
ou um pecador público.
Em verdade vos digo, tudo o que ligardes na terra será ligado
no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado
no céu.
De novo, eu vos digo: se dois de vós estiverem de acordo na terra
sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido
por meu Pai que está nos céus. Pois onde dois ou três
estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí, no meio deles"
- Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
O texto de hoje é tirado do Discurso Eclesiológico, que
trata de problemas da vida cotidiana da comunidade dos discípulos,
que Mateus chama de “Igreja” (nos Evangelhos, o termo “Igreja”
só acorre aqui e em Mt 16, 18). Entre esses problemas podemos
detectar a busca do poder (vv 1-5), o escândalo dado aos pobres
e humildes (vv 6-14), a questão do irmão que erra (vv
15-20) e o perdão das ofensas (vv 21-25). São questões
ainda atuais para as comunidades de hoje.
Um dos grandes assuntos que perpassa o capítulo é a preocupação
com o irmão (irmã) que se desgarra ou se desvia. A lição
é que os dirigentes - e a comunidade - devem ter a mesma atitude
de Jesus diante de tais pessoas, ou seja, a compaixão, a compreensão,
a vontade de reintegrá-las na comunidade. Somente em último
caso o erro de um irmão deve ser levado à comunidade mais
ampla (a Igreja), pois a caridade exige que primeiro se procure resolver
a questão em particular. É nesse espírito que a
comunidade recebe o poder que Pedro recebeu em Mt 16, 19, o de excluir
o infrator da comunidade. Mas, é essencial interpretar esse direito
à luz de vv 12-14, onde a busca da ovelha desgarrada é
dever primordial dos dirigentes comunitários, a exemplo do Pai
Celeste. Esse sentido da exclusão é ressaltado por Paulo
em 1Cor 5, 5: “humanamente ele será arrasado, mas o seu
espírito será salvo no dia do Senhor”.
O texto conclui dizendo que “se dois de vocês estiverem
de acordo sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será
concedido”. Certamente, “qualquer coisa” se situa
dentro das preocupações desta seção de Mt
que trata do seguimento de Jesus e da vivência da comunidade.
Não se refere a um pedido qualquer, ou que não fomenta
a chegada do Reino, da justiça, da partilha, da fraternidade.
Quantas vezes os nossos pedidos são nada mais do que expressões
do nosso individualismo? Cumpre lembrar que o Deus da Bíblia
ouve “o clamor do sofrido”, como tantos textos afirmam os
salmos e os profetas. O Evangelho afirma que o Pai vai atender qualquer
pedido em nome de Jesus, em favor da chegada do Reino. Não é
que não podemos rezar por nossas preocupações individuais
e pessoais, mas elas não podem dominar o horizonte da nossa fé.
Devemos realmente lembrar a frase tão importante de Mateus que
nos ensina: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça,
e tudo isso será dado em acréscimo”. A nossa oração
jamais poderá ser desvinculada dos grandes temas do Reino e do
sofrimento de tantos irmãos no mundo de hoje.