Evangelho
Naquele tempo, Jesus contou esta parábola a seus discípulos:
"O Reino dos Céus é como a história do patrão
que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha.
Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia e os mandou
para a vinha.
Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo,
viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: 'Ide
também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que
for justo'. E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio- dia
e às três horas da tarde e fez a mesma coisa. Saindo outra
vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça
e lhes disse: 'Por que estais aí o dia inteiro desocupados?'
Eles responderam: 'Porque ninguém nos contratou'. O patrão
lhes disse: 'Ide vós também para a minha vinha'.
Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: 'Chama
os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando
pelos últimos até os primeiros!' Vieram os que tinham
sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda
de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam
que iam receber mais. Porém, cada um deles também recebeu
uma moeda de prata.
Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão:
'Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste
a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro'.
Então o patrão disse a um deles: 'Amigo, eu não
fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma
o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado
por último o mesmo que dei a ti. Por acaso não tenho o
direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás
com inveja, porque estou sendo bom?'
Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros,
serão os últimos". - Palavra da Salvação
Reflexão do Evangelho
Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o
centro da pregação de Jesus era O Reino de Deus (dos Céus,
em Mateus, ou que significa a mesma coisa). Mas, Jesus nunca define
o Reino, pelo contrário, sempre o descreve por meio de parábolas,
para que o ouvinte se esforce para descobrir quais são os valores
que tornam o Reino de Deus presente no meio de nós.
A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola
do povo da Galiléia. Era uma região rica, de terra boa,
mas com o seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos
de poucos, e a maioria trabalhava ou como arrendatários ou como
“bóias-frias” como diríamos hoje. Embora a
cena situe-se na Galiléia de dois mil anos atrás, bem
poderia ser o Brasil da atualidade! Apresenta uma situação
de trabalhadores braçais desempregados, não por querer,
mas “porque ninguém os contratou” (v. 7). Talvez
haja uma diferença, comparando com a situação de
hoje - na parábola, o salário combinado era uma moeda
de prata, um denário, que na época era o suficiente para
o sustento de uma família por um dia - o que nem sempre se verifica
hoje.
O texto nos ensina que a lógica do Reino não é
a lógica da sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa
vale pelo que produz - logo, quem não produz não tem valor.
Assim se faz pouco caso do idoso, aposentado, doente, excepcional. Na
parábola, o patrão (símbolo do Pai) usa como critério
de pagamento, não a produção, mas o sustento da
vida - também o trabalhador da última hora precisa sustentar
a família; e por isso, recebe o valor suficiente, um denário.
O Reino tem outros valores do que a sociedade neo-liberal do nosso tempo
- a vida é o critério, não a produção.
Por isso, quem procura vivenciar os valores do Reino estará na
contramão da sociedade dominante. O texto nos convida a imitar
o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade
e no trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção
e consumo.
Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido.
Começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos
de origem judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé
de igualdade - eram “da última hora”. Mateus conta
a parábola para ensinar a eles que no Reino, experimentado através
da comunidade, não pode haver discriminação entre
cristãos de várias origens; por isso, “os últimos
serão os primeiros”. O critério é a gratuidade
de Deus Pai, pois tudo o que temos, recebemos d’Ele, e sendo todos
filhos e filhas amados d’Ele, a comunidade cristã não
pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja.