Evangelho
"Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. Dirigindo-se ao primeiro,
disse: 'Filho, vai trabalhar hoje na vinha.' Ele respondeu: 'Não
quero'; mas depois, reconsiderando a sua atitude, foi. Dirigindo-se
ao segundo, disse a mesma coisa. Ele respondeu: 'Eu irei, senhor'; mas
não foi. Qual dos dois realizou a vontade do pai?" Responderam-lhe:
"O primeiro". Então Jesus lhes disse. Em verdade vos
digo que os publicanos e as prostitutas estão vos precedendo
no reino de deus. Pois joão veio a vós, num caminho de
justiça, e não crestes nele. Os publicanos e as prostitutas
creram nele. Vós porém, vendo isso, nem sequer reconsiderastes
para crer nele.- Palavra da Salvação.
Reflexão do Evangelho
Esta é a primeira de uma série de três parábolas
sobre o julgamento. Todas estão dirigidas ao mesmo público
- os chefes dos sacerdotes e anciãos, ou seja, ao grupo de elite
dentro do sistema religioso de Israel.
A parábola aqui trabalha com um esquema - o que é o “dizer”
e o “agir” em resposta à vontade de Deus. Sendo parábola,
que trabalha com simbologia, os dois filhos podem representar diversas
personagens: o mais jovem pode representar o povo de Israel histórico
que disse “sim” (Ex 19, 8) e não cumpriu com a sua
palavra (cf. Jr 2, 20), ou a geração do tempo de Jesus
diante da pregação de João Batista e de Jesus.
O segundo filho pode representar qualquer um que se arrepende: as duas
categorias que recebiam então o rótulo de “pecadores”,
mas, que aceitavam o convite de João para o arrependimento; também
os pagãos que se convertem e crêem em Jesus.
No fundo, a parábola retoma um tema muito claro no Sermão
da Montanha: “Nem todo aquele que me disser: Senhor, Senhor! Entrará
no Reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu”
(Mt 7, 21). Mateus é o Evangelho da prática da vontade
do Pai, revelada em Jesus. O contraste entre os grupos na parábola
chega a ser chocante - de propósito. De um lado temos a elite
do sistema religioso judaico, que se considerava justa e sem qualquer
necessidade de arrependimento; do outro lado, os pecadores públicos,
bem conscientes da necessidade de conversão sincera. A parábola
traz a mesma mensagem daquela do fariseu e do publicano em Lc 18, 9-14,
e tem ecos de uma outra parábola com dois irmãos - a do
“Filho Pródigo” em Lc 15, 11-32.
Esse texto nos desafia para que façamos um exame de consciência.
Quantas vezes rotulamos pessoas e grupos como pecadores, injustos, desprezíveis,
a partir das aparências e dos nossos preconceitos, enquanto nos
contentamos com uma prática externa de religião sem conseqüências
práticas para a sociedade, assim como faziam os chefes dos sacerdotes
e anciãos do tempo de Jesus. Hoje em dia podemos não ter
publicanos, mas quantos são desprezados nas nossas comunidades
como os publicanos de então, por serem “drogados”,
“aidéticos” “homossexuais”, “prostitutas”
“divorciados” ou por outros motivos? Quantas vezes nos contentamos
com uma religião que consiste em simplesmente cumprir a tabela
dos ritos e rituais, com a moral burguesa da sociedade idolátrica
consumista, sem perguntarmo-nos sobre os frutos de justiça da
tal prática.
Mateus insiste que é pelos frutos que se conhece a árvore.
Os ouvintes dessa parábola devem ter ficado chocados e ofendidos
com a frase de Jesus, “os cobradores de impostos e as prostitutas
(pessoas consideradas irremediavelmente perdidas) vão entrar
antes de vocês no Reino de Deus”. Pois, Jesus desmascarava
a religião dominante em Israel, que, escondida atrás de
rituais e minúcias legais, marginalizava a maioria e lisonjeava
uma minoria que se outorgava o direito de julgar os outros, sem dar
frutos de justiça, partilha e solidariedade! “É
pelos frutos que se conhece a árvore” (Mt 7, 20). Deixemos
que este texto chocante nos interpele, examinando os frutos reais da
nossa prática, para que não caiamos na cilada dos chefes
dos sacerdotes e anciãos, apontando os erros dos outros e julgando-os,
sem sentir a nossa própria necessidade de arrependimento.